20.11.07

Ah, um soneto...


Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...

Álvaro de Campos, Poesias, Ed. Ática

I

Depois de uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema de modo que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- o tema/assunto e seu desenvolvimento;
- os recursos estilísticos na explicitação dos tempos: passado/presente;
- o incorformismo do abandono da "profissão do mar" (v. 2);
- a interligação dos mundos da memória e sensibilidade e o do real;
- os sentimentos dominantes e a identidade entre coração/pessoa;
-o título do poema em oposição ao versilibrismo e heteromorfismo da poesia de Álvaro Campos.


II

Fernando Pessoa afirma que Álvaro de Campos «é o filho indisciplinado da sensação».
Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, desenvolva a temática das sensações na poesia heteronímica de Fernando Pessoa.


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e catorze palavras, num texto de noventa e cinco a cento e quinze palavras.

Na verdade, só lutando consigo próprio, por um esforço de imaginação, foi Álvaro de Campos o cantor whitmaniano, delirante, da Energia e do Progresso. Na «Saudação a Walt Whitman» definiu-se, e bem, pelo tédio: «Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio...» Inércia, tédio são, com efeito, as constantes da sua personalidade desde a fase do «Opiário». Na última fase, em 1926, dirá: «Ah, cansa-te nobremente/E não cantes, como eu, a vida por bebedeira...» (pág. 20). O Campos whitmaniano cantou a vida por bebedeira. As suas sensações desenfreadas, a sua emotividade pânica jamais passaram da esfera da inteligência: «Orgia intelectual de sentir a vida!» (pág. 225). Intelectual, apesar do rótulo de sensacionista, a poesia de Campos é-o tanto como a de Caeiro. Justifica-a o desejo de afogar o tédio de suprimir pela embriaguez a dor de viver, a «angústia no fundo de todos os prazeres», a «saciedade antecipada na asa de todas as chávenas» - expressões da «Passagem das Horas». «Vale a pena sentir para ao menos deixar de sentir» (pág. 124). Campos sentiu como Whitman para deixar de sentir como Campos. Mas o tour de force malogrou-se: depois de 1916, Campos virá a ser o poeta do cansaço, da abulia, do vazio, inquieto e nauseado.
Mesmo nos poemas vincadamente whitmanianos, amplas polifonias, há acordes dissonantes. Na «Ode Triunfal», quando, um crescendo raivoso, estava gritando o seu amor por todas as vidas anónimas e o desespero de não as devassar, abre um parêntese de nove versos para, num tom grave e recolhido, reflectir sobre o mistério do mundo, a fatalidade da morte, a doçura triste da infância que não volta:
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo, Pinheirais onde a minha infância era outra coisa Do que eu sou hoje... (pág. 150)
Fechado o parêntese, reaparece a «raiva mecânica», a «obsessão movimentada dos ómnibus», a fúria de ir ao mesmo tempo nos comboios de toda a parte.


Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa,
Ed. Verbo (pp. 66-68)