13.10.07

Segue o teu destino

Rose Poetry Art Print by Laura Martinelli

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, Odes



I

Ricardo Reis defende o prazer e a busca da calma ou a sua ilusão, para viver feliz.
1.1. Explique o sentido do verso "Ama as tuas rosas" (v. 3), tendo em conta os conselhos dados na primeira estrofe.
1.2. Comente a construção dos primeiros três versos, atendendo às formas verbais e à função da linguagem predominante.
1.3. Mostre em que medida se diferencia a realidade daquilo que "somos".

2. Escolha a expressão que melhor exprime a apatia como ideal ético.

3. Prove que é necessária a ataraxia para viver com satisfação, mas que a calma e a felicidade são inatingíveis, mesmo para os deuses.

4.Comente o pensamento epicurista que se depreende do poema.

5. Enquadre esta composição na produção poética de Ricardo Reis.


II

Num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, comente os seguintes versos de Caeiro, tendo em atenção que o homem deve aprender a sentir e a não pensar, libertando-se assim de todas as máscaras e cargas ideológicas.
«A espantosa realidade das coisas/É a minha descoberta de todos os dias./Cada coisa é o que é,/E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra./E quanto isso me basta.»


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e oitenta e quatro palavras, num texto de cento e dezoito a cento e trinta e oito palavras.

A publicação do Livro do Desassossego por Bernardo Soares pode suscitar um gesto de cepticismo, ou mesmo de saturação, motivado pela suspeita de que da infindável arca de Pessoa se continuarão a retirar inúmeros textos fragmentários que nada vêm acrescentar ao que de Pessoa se conhece. Poder-se-â até supor que a imagem de Pessoa se diminui nesta abusiva exposição de obras que o não chegaram a ser. Em relação ao Livro do Desassossego, uma tal atitude será certa¬mente insensata. Não apenas porque, como outros já disseram, e com suficiente veemência, se encontram nestas páginas algumas das páginas mais belas da literatura portuguesa. Mas também porque elas poderão contribuir para (re)ler Pessoa, para (re)pensar Pessoa, desde que se lhes saiba atribuir o lugar central que Pessoa conferia a este seu projecto. De certo modo, podemos dizer que, se o Livro do Desassossego não «explica» o «enigma» dos heterónimos, contudo vem ocupar o lugar desse enigma. Jacinto do Prado Coelho pode dizer que penetramos aqui «no laboratório secreto do escritor». E Jorge de Sena soube assinalar que descobrimos «as células "ortónimas" (da criatura que dava pelo nome de Fernando Pessoa) em processo de cissiparídade heteronímica».
Dir-se-á que são fragmentos, restos, lixo, refugo. E são estas, aliás, as palavras de Pessoa para designar o estatuto deste texto. Não podemos ignorar que, nas várias fases (Sena aponta três) em que Pessoa foi concebendo o projecto deste Livro do Desassossego, ele sentiu, e disso deu testemunho, que este carácter inacabado e solto era uma deficiência.
Pela nossa parte, diremos que a leitura desta obra implica que se dê um valor positivo a esta aparente deficiência. Importa sublinhar, sobretudo, o peso de uma insistência, a persistência de uma obsessão suspensa na palavra «desassossego» de que este livro se faz compêndio. Acentuemos (para salientar aqui uma linha de demarcação em relação a leituras de «espírito presencista») que a literatura não é aqui um fim, mas um meio. E que este afluxo recorrente de escrita (que se aproxima sem nunca tomar a forma de um «diário») nos envolve precisamente num espaço literário que está para além do acabamento ou inacabamento das obras, da perfeição ou imperfeição dos textos, isto é, para além das normas, valores e hierarquias da instituição da literatura (sobre isto valerá a pena reler a correspondência Artaud/Rivière).

Eduardo do Prado Coelho, "Pessoa: Lógica do Desassossego",
in A Mecânica dos Fluidos, Lisboa, INCM (pp. 21-31)