14.10.07

Leandro, Rei da Helíria

1º ACTO Cena I

Rei Leandro, Bobo
(No jardim do palácio real de Helíria. Rei Leandro passeia com o Bobo.)

Rei - Estranho sonho tive esta noite... Muito estranho...
Bobo - Para isso mesmo se fizeram as noites, meu senhor! Para pensarmos coisas acertadas, temos os dias - e olha que bem compridos são!
Rei - Não sabes o que dizes, Bobo! São as noites, as noites é que nunca mais têm fim!
Bobo - Ai, senhor, as coisas que tu não sabes...
Rei - Estás a chamar-me ignorante?
Bobo - Estou! Claro que estou! Corno é possível que tu não saibas como são grandes os dias dos pobres, e como são rápidas as suas noites...
Rei - (interrompendo) Cala-te!
Bobo - Pronto, estou calado.
Rei - Não me interessam agora os teus pensamentos, o que tu achas ou deixas de achar. Eu estava a falar do meu sonho.
Bobo - Muito estranho tinha sido, era o que tu dizias...
Rei - Nunca me interrompas quando eu estou a falar dos meus sonhos!
Bobo - Nunca, senhor!
Rei - Nada há no mundo mais importante do que um sonho.
Bobo - Nada, senhor?
Rei - Nada.
Bobo - Nem sequer um bom prato de favas com chouriço, quando a fome aperta? Nem sequer um lumezinho na lareira, quando o frio nos enregela os ossos?
Rei - Não digas asneiras, que hoje não me apetece rir.
Bobo - Que foi que logo de manhã te pôs assim tão zangado com a vida? Já sei! O conselheiro andou outra vez a encher-te os ouvidos com as dívidas do reino!
Rei - Deixa o conselheiro em paz... E o reino não tem dívidas, ouviste?
Bobo - Não é o que ele diz por aí, mas enfim... Então, se ainda por cima não deves nada a ninguém, por que estás assim tão maldisposto? Terá sido coisa que comeste e te fez mal? Aqui há dias comi um besugo estragado, deu-me a volta às tripas, e olha...
Rei - (interrompendo-o) Cala-te que já não te posso ouvir! (Suspira) Ah, aquele sonho! Coisa estranha aquele sonho...
Bobo - Ora, meu senhor! E o que é um sonho? Sonhaste, está sonhado. Não adianta ficar a remoer.
Rei - Abre bem esses ouvidos para aquilo que te vou dizer!
Bobo - (com as mãos nas orelhas) Mais abertos não consigo!
Rei - Os sonhos são recados dos deuses.
Bobo - E para que precisam os deuses de mandar recados? Estão lá tão longe...
Rei - Por isso mesmo. Porque estão longe. Tão longe que às vezes nos esquecemos que eles existem. E então que nos mandam recados. Mas os recados são difíceis de entender. Acordamos, queremos recordar tudo, e muitas vezes não conseguimos
Bobo -(aparte) E o que faz ser deus... Eu cá, quando quero mandar recado, é uma limpeza: "O Brites, guarda-me aí o melhor naco de toucinho para a ceia!" (Ri) Não preciso mandar recados pelos sonhos de ninguém!
Rei - Que estás tu para aí a resmonear?
Bobo - Nada, senhor! Reflectia apenas nas tuas palavras. Rei E bom é que nelas reflictas. Apesar de bobo, quem sabe se um dia não irão os deuses lembrar-se de mandar algum recado pelos teus sonhos... (Pára, de repente. Fica por momentos a olhar para o bobo, e depois pergunta, com ar intrigado) Ouve lá, tu também sonhas?
Bobo - (rindo) Não, meu senhor! Só os grandes fidalgos é que sonham! Nós somos uns pobres servos... Sonhar seria um luxo, um desperdício! De resto, que podiam os deuses querer deste pobre louco? Que recados teriam para lhe mandar?
Rei - És capaz de ter razão... (Suspira] Nem sabes a sorte que tens!
Bobo - (irónico) Sei sim, meu senhor! Sou uma pessoa cheia de sorte! Todas as manhãs, quando o frio me desperta e sinto o corpo quebrado de dormir na palha estendida no chão, então é que eu per¬cebo como sou feliz...
Rei - Zombas de mim?
Bobo - Zombar, eu, senhor? Zombar de quê, se as tuas palavras são o eco das minhas?
Rei - Ah, meu bobo fiel, como eu às vezes gostava de estar no teu lugar, sem preocupações, sem responsabilidades...
Bobo - E para já, senhor! Toma os meus farrapos e os meus guizos, e dá-me o teu manto, a rua coroa, o teu ceptro...
Rei - (agitado) Cala-te!... Era isso mesmo que se passava no sonho... A coroa... o manto... o ceptro... tudo no chão... eu a correr, mas sem poder sair do mesmo sítio... e a coroa sempre mais longe, mais longe... e o manto... e o ceptro... e as gargalhadas...
Bobo - Gargalhadas? Não me digas que eu entrava no teu sonho?
Rei - (como se o não tivesse ouvido)... as gargalhadas delas... e como elas se riam... riam-se de mim... e a coroa tão longe... e o manto tão longe... e o frio... tanto frio que eu tinha!...
Bobo - Perdoa-me, senhor, mas isso são tolices, dizes coisas sem nexo... Foi alguma coisa que comeste ontem, tenho a certeza. Por que não o esqueces de vez?
Rei - Tens razão. Farei por esquecê-lo. Não tenho motivos nenhuns para estar inquieto.

Alice Vieira, Leandro, Rei da Helíria
(texto com supressões)




I

1. O Rei teve um sonho.
1.1. Que efeito teve nele esse sonho?
1.2. Que significado dá o monarca aos sonhos dos homens?
1.3. Que sonhou o Rei? *
1.4. Adianta uma interpretação possível para o sonho do Rei.

2. O Bobo afirma que os pobres não sonham.
2.1. Porquê?
2.2. Dá a tua opinião sobre essa ideia do Bobo.

3. O Rei e o Bobo têm ideias diferentes sobre a sorte do segundo. Apresenta o ponto de vista de cada um.

4. O Bobo não serve apenas para divertir o rei. Que outro papel lhe está reservado no texto?

5. O respeito devido pelo Bobo ao Rei nota-se no emprego do vocativo. Dá exemplos.

6. Explica o emprego das reticências na narração do sonho pelo Rei.