6.9.07

Inês de Castro (C.III, 108-121)

118
Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste e dino da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que depois de ser morta foi Rainha.

119
Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

120
Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

121
Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto III

I

1. Situe o episódio da morte de Inês de Castro no plano narrativo em que está inserido.

2. Por que motivo se dirige o narrador ao Amor?

3. O amor é personificado. Como está caracterizado?

4. Nas estâncias 120 e 121 traça-se o retrato físico e dá-se a conhecer o estado psicológico de Inês de Castro.

4.1. Saliente as características de um e de outro.

5. Que motivos levaram D. Afonso IV a mandar matar Inês de Castro?

6. Explique por palavras suas o significa das seguintes expressões: molesta morte e mísera e mesquinha.

7. Identifique no texto duas figuras de estilo e comente o seu valor expressivo.

8. Faça a análise formal (estrofe, métrica e rima) da estância 121.

9. Explique a formação das palavras seguintes: dino, fermosos e fruito.

10. Faça a análise morfológica do último verso da estrofe 121.