18.9.07

Funga

Le Cirque I Art Print by Sophie Jourdan

Era de facto como eu pensara. A companhia do circo estava no palanque, dançando ao som da música que cinco homens executavam. Lá estavam os dois faz-tudos, com as suas momices ao pé do homem das forças, que mostrava os músculos dos braços e das costas. O do fato bonito, com um grande coração no peito, trazia a cara toda branca e a boca vermelha, e tirava o carapuço de vez em quando para se lhe ver a popa do cabelo negro. Do outro é que eu gostava. Daquele que tinha uma grande boca branca, traços na cara, um chapéu pequenino no alto da cabeleira vermelha, um colarinho para dez pescoços, colete e casaco até aos pés. Mal se lhe viam as calças apertadas em baixo, para melhor se realçar as botas disformes.
O homem da campainha gritava sempre com voz rouca.
— O melhor espectáculo da feira! É entrar!...
E o faz-tudo vinha para junto dele, emendando-o.
— Não é espectáculo, é espétaculo!...
Cá em baixo o povo ria e o palhaço vinha bater na cara do faz-tudo, como que a repreendê-lo de se meter com o dono do circo. Os homens encaminhavam-se para a bilheteira, porque, pela amostra, deveria haver farta bazanada nos intervalos da menina do arame e do homem que quase era capaz de aguentar nos dentes a Golegã em peso.
— E entrar, meus senhores, é entrar!... A maior maravilha da feira!... Aproveitem a ocasião para ver a melhor companhia de circo do Mundo!...
Embasbacado, sem compreender o sentido de parte das palavras que o homem dizia, con¬tinuava a seguir todos os gestos e expressões do faz-tudo de boca grande. Depois a música acabou e duas mulheres, os palhaços e o homem das forças debruçaram-se cá para baixo, apontando a bilheteira e descrevendo tudo a que se assistia, pagando o bilhete.
— O homem que engole espadas e ferro em brasa! Uma criança que dá dez saltos mortais todos seguidos!
E apontavam uma rapariga do meu tamanho, muito magrita e de grandes olheiras.
Com a insistência do reclame iam entrando mais pessoas, vencida finalmente a sua descrença. Aproximei-me da porta, muito sorrateiro, sorrindo-me para um dos homens que vedava a passagem. Ele fez que não dava por mim, mas tinha o olhar bem posto nos meus movimentos, pois, quando me tentei meter num grupo que entrava, deitou-me a mão à camisa e sacudiu-me.
— Fora daqui!...

Alves Redol, Funga


I

1. Menciona as principais funções dos elementos da companhia de circo.

2. Caracteriza o ambiente que envolve o circo.

3. Indica os vários meios de que se serve a companhia de circo para captar a atenção do público.

4. Relê a descrição do "faz-tudo" de boca grande.
a)Escolhe quatro palavras de classes gramaticais diferentes e classifica-as morfologicamente.
b) Apresenta uma explicação para a preferência do narrador por esse "faz-tudo".

5. Atenta no anúncio feito pelo homem da campainha.
a) Refere o seu objectivo.
b) Aponta a função da linguagem predominante e o elemento do esquema de comunicação em que está centrada.
c) Extrai do texto uma frase que demonstre o efeito produzido pelo anúncio.
Comenta a atitude do guarda para com o narrador.


II

Imagina e conta um momento do espectáculo da companhia de circo apresentada no texto.