30.9.07

História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar

O último voo

O gato grande, preto e gordo estava a apanhar sol na varanda, ronronando e meditando acerca de como se estava bem ali,recebendo os cálidos raios pela barriga acima, com as quatro patas muito encolhidas e o rabo estendido.
No preciso momento em que rodava preguiçosamente o corpo para que o sol lhe aquecesse o lombo ouviu o zumbido provocado por um objecto voador que não foi capaz de identificar e que se aproximava a grande velocidade. Atento, deu um salto, pôs-se de pé nas quatro patas e mal conseguiu atirar-se para um lado para se esquivar à gaivota que caiu na varanda.
Era uma ave muito suja.Tinha todo o corpo impregnado de uma substância escura e malcheirosa.
Zorbas aproximou-se e a gaivota tentou pôr-se de pé arrastando as asas.
— Não foi uma aterragem muito elegante — miou.
— Desculpa. Não pude evitar — reconheceu a gaivota.
— Olha lá, tens um aspecto desgraçado. Que é isso que tens no corpo? E que mal que cheiras! — miou Zorbas.
— Fui apanhada por uma maré negra. A peste negra. A maldição dos mares. Vou morrer — grasnou a gaivota num queixume.
— Morrer? Não digas isso. Estás cansada e suja. Só isso. Porque é que não voas até ao jardim zoológico? Não é longe daqui e lá há veterinários que te poderão ajudar — miou Zorbas.
— Não posso. Foi o meu voo final — grasnou a gaivota numa voz quase inaudível, e fechou os olhos.
— Não morras! Descansa um bocado e verás que recuperas. Tens fome? Trago-te um pouco da minha comida, mas não morras — pediu Zorbas, aproximando-se da desfalecida gaivota.
Vencendo a repugnância, o gato lambeu-lhe a cabeça. Aquela substância que a cobria, além do mais, sabia horrivelmente. Ao passar-lhe a língua pelo pescoço notou que a respiração da ave se tornava cada vez mais fraca.
— Olha, amiga, quero ajudar-te mas não sei como. Procura descansar enquanto eu vou pedir conselho sobre o que se deve fazer com uma gaivota doente — miou Zorbas preparando-se para trepar ao telhado.
Ia a afastar-se na direcção do castanheiro quanto ouviu a gaivota a chamá-lo.
— Queres que te deixe um pouco da minha comida? — sugeriu ele algo aliviado.
— Vou pôr um ovo. Com as últimas forças que me restam vou pôr um ovo. Amigo gato, vê-se que és um animal bom e de nobres sentimentos. Por isso, vou pedir-te que me faças três promessas. Fazes? — grasnou ela, sacudindo desajeitadamente as patas numa tentativa falhada de se pôr de pé.
Zorbas pensou que a nobre gaivota estava a delirar e que com um pássaro em estado tão lastimoso ninguém podia deixar de ser generoso. — Prometo-te o que quiseres. Mas agora descansa — miou ele compassivo.
— Não tenho tempo para descansar. Promete-me que não comes o ovo — grasnou ela abrindo os olhos.
— Prometo que não te como o ovo — repetiu Zorbas.
— Promete-me que cuidas dele até que nasça a gaivotinha.
— Prometo que cuido do ovo até nascer a gaivotinha.
— E promete-me que a ensinas a voar — grasnou ela fitando o gato nos olhos.
Então Zorbas achou que aquela infeliz gaivota não só estava a delirar, como estava completamente louca.
— Prometo ensiná-la a voar. E agora descansa, que vou em busca de auxílio — miou Zorbas trepando de um salto para o telhado.

Luís Sepúlveda, História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar





I

Fazer perguntas sobre o conteúdo do texto é uma forma de verificar a sua compreensão. Constrói e regista as perguntas que poderiam obter as respostas seguintes.

1.………………………………………..?
O gato estava na varanda.

2.……..………………………………..?
A gaivota estava muito suja e com o corpo coberto de uma substância malcheirosa.

3.……..………………………………..?
Tinha sido apanhada pela maré negra.

4.……..………………………………..?
O gato sugeriu-lhe que voasse até ao Jardim Zoológico, porque lá havia veterinários que cuidariam dela.

5.……..………………………………..?
Em sinal de amizade, o gato lambeu-lhe a cabeça.

6.……..………………………………..?
O gato prometeu que não comeria o ovo, que cuidaria dele até nascer a gaivotinha e que a ensinaria a voar.


II

1. O gato ficou tão impressionado que resolveu ir contar aos amigos o que tinha acontecido. Faz o resumo do texto.




26.9.07

Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente




Comenta devidamente a seguinte afirmação, baseando-te nas leituras efectuadas:
«Os Diabos Vicentinos são inesquecíveis. No Auto da Barca do Inferno não há personagem mais viva do que o Diabo.»

António José Saraiva, in Vértice Vol. XXV


1 - A partir do estudo que efectuaste da cena do Onzeneiro, imagina o que teria dito a referida personagem no seguimento da seguinte fala: «Mais quisera eu lá tardar...»
Procura revelar as características fundamentais desta personagem no teu texto.

2 - Com base no estudo da cena do « Onzeneiro », imagina e escreve a continuação do verso interrompido abaixo apresentado, pondo em relevo as características dessa personagem.

3 - Num pequeno texto expositivo , aplica à cena dos «Quatro Cavaleiros» o seguinte provérbio "Quem não deve não teme".

4 - Explica a intenção crítica de Gil Vicente presente no Auto, referindo-te às cenas mais significativas.



24.9.07

O charlatão


O sítio deles era à entrada da ponte, no Largo Velho.
- Ora aqui temos nós a última descoberta científica do século!
Falava de cima de uma cadeira, em pé, ao lado de uma mesa, sobre a qual estava um grande baú aberto. Passeava-lhe um rato branco pêlos ombros, e era impossível fugir à magia daquela 5 enorme cabeleira, que lhe coroava uma bela fronte de lutador. Só vinha na feira dos vinte e três. Armava a tenda logo pela manhã, e daí a nada já tinha freguesia a beber-lhe as palavras. A sua voz era sugestiva, funda, com quantos tons eram precisos para encantar homens de todas as terras e de todas as raças.
- Façam favor de ver...
E só quem era cego é que não via.
- Vou agora contar-lhes uma anedota.
Os que já faziam parte da roda arrebitavam as orelhas, os que iam no seu caminho paravam e ficavam maravilhados a ouvir. No fim, todos se riam, que a coisa tinha, na verdade, graça.
- Vou agora mostrar a W. Ex.as a autêntica víbora da felicidade!
"Excelências"?! Estava a brincar, ou a falar a sério? Mas ao fim e ao cabo, quem é que não gosta, uma vez na vida, de ser tratado por "excelência"? E um, de Almalaguês, perdeu a cabeça e lá comprou aquele "talismã da felicidade" por cinco escudos.
- Bem burro! - não se conteve uma criada. Mas estava era com pena de o não ter comprado ela.
Já nova maravilha saía das profundezas do baú.
- Sarna, eczema, impigens, lepra, furúnculos, tudo quanto uma pele humana possa conceber, é enquanto o demónio esfrega um olho! Vejam: pega-se na ulceração, um bocadinho de pomada em cima, ao de leve e pouco, que é para poupar, e não se pensa mais nisso! Cinco tostões apenas! Só a caixa vale quinze! Aproveitem, que numa drogaria custa-lhes dois escudos!

Miguel Torga, Rua
(texto com supressões)



I

Indica a resposta correcta para cada uma das questões.

1. A palavra charlatão, aplicada a certo tipo de indivíduos, significa que eles:
a) procuram convencer o público, exagerando a qualidade dos seus produtos.
b) andam pelas feiras para divertir o público.
c) entusiasmam o público pêlos profundos conhecimentos que revelam.
d) actuam junto do público para o ensinar a falar bem.

2. Pela leitura do primeiro parágrafo do texto, podemos concluir que o charlatão:
a) fazia grande negócio junto da ponte.
b) gostava de passear junto da ponte.
c) se estabelecia sempre à entrada da ponte.
d) possuía um terreno situado junto da ponte.

3. Ao anunciar a "última descoberta científica do século", o charlatão referia-se a:
a) um artigo que tinha para vender.
b) uma última invenção de um cientista.
c) uma descoberta científica do último século.
d) um medicamento raro e inédito.

4. O sinal de pontuação que remata o 2? parágrafo tem a função de:
a) marcar o tom exclamativo da frase.
b) deixar a afirmação em suspenso.
c) exprimir a admiração do charlatão pêlos fregueses.
d) conferir ironia à frase.

5. O charlatão estava em cima de uma cadeira. Tinha saltado para lá:
a) para melhor abranger o seu auditório.
b) porque queria parecer mais alto.
c) com medo de um rato que lhe saltou para os ombros.
d) a fim de melhor observar e ter acesso ao conteúdo do baú.

6. O rato branco que passeava sobre os ombros do charlatão destinava-se a:
a) atrair a atenção dos clientes.
b) ser cobaia de experiências com os produtos vendidos.
c) divertir o charlatão.
d) ser vendido.

7. Pela leitura das linhas 4 e 5 do texto, ficamos a saber que o charlatão usava uma longa cabelei-ra. Esta despertava nos clientes:
a) uma certa repugnância. c) um irresistível interesse.
b) um grande terror. d) vontade de rir.

8. Falando do charlatão, o narrador refere-se à sua "bela fronte de lutador". Este traço fisionó-mico dá-nos a entender que o charlatão tinha um ar de:
a) homem desiludido. c) homem orgulhoso.
b) homem cansado de lutar. d) homem enérgico e decidido.

9. Na linha 5, ficamos a saber que o charlatão só vinha "na feira dos vinte e três". Isso significa que o charlatão:
a) vinha à feira de 23 em 23 anos.
b) vinha à feira que se realizava no dia 23 de cada mês.
c) vinha à feira que se realizava todas as semanas.
d) vinha a uma feira limitada a 23 negociantes.

10. Mal armava a tenda, o charlatão "já tinha a freguesia a beber-lhe as palavras...". Entende-se que os fregueses:
a) estavam cheios de sede.
b) estavam desejosos de tomar os remédios anunciados.
c) eram convidados a beber alguma coisa.
d) o ouviam com atenção e avidez.

11. Ao ouvirem a anedota que o charlatão contava, "... os que já faziam parte da roda arrebitavam as orelhas ...". A expressão sublinhada significa que as pessoas:
a) tapavam os ouvidos, porque ele falava muito alto.
b) punham as mãos em concha nas orelhas, para melhor o ouvirem.
c) prestavam muita atenção à anedota.
d) não davam ouvidos às suas palavras.

12. Os fregueses interessavam-se pelo que dizia o charlatão, porque:
a) queriam aprender com ele a tratar doenças graves.
b) ele curava todas as doenças.
c) ele respondia a todas as perguntas.
d) o seu discurso era sedutor.

13. Ao dizer "Os que já faziam parte da roda...", o narrador dá-nos a entender que os clientes estavam:
a) amontoados à frente do charlatão.
b) à volta do charlatão.
c) espalhados pelo espaço circular da feira.
d) à volta da feira.

14. O charlatão tratava os seus clientes por "Excelências", porque:
a) era esse o tratamento habitual naquela terra.
b) tinha interesse em mostrar-se simpático e cortês.
c) os considerava pessoas muito importantes.
d) queria troçar deles.

15. As pessoas, ao ouvirem tal forma de tratamento, sentiam-se:
a) ofendidas. c) irritadas.
b) envergonhadas. d) lisonjeadas.

16. Um dos fregueses "perdeu a cabeça". Por esta expressão, podemos concluir que esse freguês:
a) se entusiasmou e comprou o produto.
b) se irritou e não comprou o produto.
c) perdeu os sentidos.
d) ficou surpreendido.

17. A criada que estava ao lado, ao vê-lo comprar "o talismã da felicidade", exclamou: "Bem bur-ro!" A intenção dela era:
a) fazer com que o freguês não comprasse o produto.
b) chamar "burro" ao charlatão.
c) desdenhar querendo comprar.
d) mostrar que não acreditava na felicidade.

18. Quando utilizou a expressão "enquanto o demónio esfrega um olho!", o charlatão referia-se à:
a) rapidez com que se aplicavam os remédios.
b) rapidez com que ele tirava os remédios do baú.
c) rapidez com que os remédios curavam os males.
d) rapidez com que os remédios curavam os olhos.

19. Dizia o charlatão que, "para poupar pomada", se devia aplicar uma leve camada sobre a ferida. Dava este conselho, porque:
a) pretendia aliciar o público e suscitar maior interesse pela compra.
b) tinha pouca pomada para vender.
c) não queria que os fregueses fizessem economias.
d) não queria prejudicar os clientes.

20. Ao comparar os seus preços com os da drogaria, o charlatão pretendia:
a) lembrar que esses produtos se vendiam na drogaria.
b) mostrar que a sua pomada custava tanto como a da drogaria.
c) evidenciar o baixo preço dos seus produtos.
d) fazer má propaganda das drogarias.