21.8.07

Mestre Finezas



Agora entro, sento-me de perna cruzada, puxo um cigarro, e à pergunta de sempre respondo soprando o fumo:
— Só a barba.
Ora é de há pouco este meu à-vontade diante de mestre Ilídio Finezas.
Lembro-me muito bem de como tudo se passava. Minha mãe tinha que fingir-se zangada. Eu saía de casa, rente á parede, sentindo que aquilo era pior que ir para a escola.
Mestre Finezas puxava um banquinho para o meio da loja e enrolava-me numa enorme toalha. Só me ficava a cabeça de fora.
Como o tempo corria devagar!
A tesoura tinia e cortava junto das minhas orelhas. Eu não podia mexer--me, não podia bocejar sequer. — «Está quieto, menino» — repetia mestre Finezas segurando-me a cabeça entre as pontas duras dos dedos: — «As¬sim, quieto!» — Os pedacitos de cabelo espalhados pelo pescoço, pela cara, faziam comichão e não me era permitido coçar. Por entre as madeixas caídas para os olhos via-lhe, no espelho, as pernas esguias, o carão severo de magro, o corpo alto curvado. Via-lhe os braços compridos, arqueados como duas garras sobre a minha cabeça. Lembrava uma aranha.
E eu — sumido na toalha, tolhido numa posição tão incómoda que todo o corpo me doía — era para ali uma pobre criatura indefesa nas mãos de mestre Ilídio Finezas.
Nesse tempo tinha-lhe medo. Medo e admiração. O medo resultava do que acabo de contar. A admiração vinha das récitas dos amadores dramáticos da vila.
Era pelo Inverno. Jantávamos à pressa e nessas noites minha mãe penteava-me com cuidado. Calçava uns sapatos rebrilhantes e umas peúgas de seda que me enregelavam os pés. Saíamos. E, no negrume da noite que afogava as ruas da vila, eu conhecia pela voz famílias que caminhavam na nossa freme e outras que vinham para trás. Depois, ao entrar no teatro, sentia-me perplexo no meio de tanta luz e gente silenciosa. Mas todos pareciam corados de satisfação.
Daí a pouco, entrava num mundo diferente. Que coisas estranhas aconteciam! Ninguém ali falava como eu ouvia cá fora. E mesmo quando calados tinham outro aspecto; constantemente a mexerem os braços. Mestre Finezas era o que mais se destacava. E nunca, que me recorde, o pano desceu, no i? último acto, com mestre Finezas ainda vivo. Quase sempre morria quando a cortina principiava a descer e, na plateia, as senhoras soluçavam alto.
Aquelas desgraças aconteciam-lhe porque era justo e tomava, de gosto, o partido dos fracos. E, para que os fracos vencessem, mestre Finezas não tinha medo de nada nem de ninguém. Heroicamente, de peito aberto e com grandes falas ia ao encontro da morte.



I

1. Faz a integração do excerto na estrutura do conto estudado.

2. Em que consiste a acção desta narrativa?
2. 1. Onde decorre essa acção?

3. Este texto desenvolve-se à volta de um momento correspondente a uma fase da vida de duas personagens.
3. 1. De que personagens se trata?
3.2 Que fase é essa?

4. O ambiente social no qual as personagens se inserem exerce influência marcante nas suas vidas.
4. 1 Caracteriza, a partir de elementos do texto, esse ambiente social.
4.2 Diz em que medida as vidas das personagens foram influenciadas por esse ambiente.

5. Indica as emoções despertadas no público pela a actuação do Mestre Finezas e explica-as.

6. Faz a caracterização psicológica do Mestre Finezas tendo em conta o excerto transcrito.

7. Classifica o estatuto do narrador.

8. Qual o estado psicológico do narrador?

9. Faz o levantamento de expressões temporais que permitam identificar o tempo cronológico decorrido.

10. Retira do texto um exemplo de um momento descritivo e de um momento narrativo.
10. 1 Diz em que consiste a diferença entre descrição e narração.

11. "Lembrava uma aranha".
Identifica a figura de estilo aqui presente.