2.8.07

Esteiros

Mãos esquecidas nos bolsos e pés roxos de frio, os garotos cosiam-se com os portais, à espera do caldo ou do sol que pouco aquecia. Senhores das ruas, abandonaram-nas no ímpeto das águas e do vento, vencidos em luta desigual. E lá se foi o mundo imaginário em que brincavam.
O vento correu de lado a lado, em tropelia doida; sacudiu portas e postigos, e deixou tudo desola-do e nu, como as árvores do vale. Depois veio a chuva fazer do rio—carreiro de água negra na valeta—um mar de lama que alagou as ruas. Houve barcos no fundo, castelos desmoronados, jardins emurchecidos... Obras de arte, que eram prodígios de fantasia, perderam-se no dilúvio. Onde fora escarpa pedregosa de monte existia agora lagoa misteriosa, em que se miravam rostos de olhar inquieto, tristonhos.
—Sagui, conta uma história.
—Agora, não.
As histórias contavam-se em noites de Verão, enquanto os fornos lambiam mutanos. Havia estrelas no céu, e o telhai, enluarado, era cenário irreal. Então, os moços ficavam encantados em príncipes, e viviam as histórias que o Sagui contava melhor que um letrado:
—Era uma vez um príncipe...
Agora não havia príncipes, nem estrelas.
—Qualquer dia entro prà fábrica...— pôs-se o Maquineta a sonhar alto.
—É o entras.
—Tenho um pedido...
Todos tinham pedidos para a Fábrica Grande.

SOEIRO PEREIRA GOMES, Esteiros




I

1. Caracteriza, por palavras tuas, os rapazes que são retratados no texto.
a) Distingue as estações do ano apresentadas no texto.
b) Refere as transformações que a paisagem sofreu com a mudança do tempo.
Explica a frase seguinte: "Senhores das ruas, abandonaram-nas no ímpeto das águas e do vento, vencidos em luta desigual".

2. Faz o levantamento dos vocábulos ligados ao "mundo imaginário".
a) Imagina e escreve a continuação da seguinte frase do Maquineta: "Qualquer dia entro prà fábrica..."
b) Classifica sintacticamente os elementos dessa frase.


II

Numa carta dirigida ao director da Fábrica Grande, imagina e escreve o pedido de emprego para o Maquineta.