10.7.07

No dia seguinte, na estação de Santa Apolónia


No dia seguinte, na estação de Santa Apolónia, Ega, que viera cedo com o Vilaça, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou Maria, que entrava trazendo Rosa pela mão. Vinha toda envolta numa grande peliça escura, com um véu dobrado, espesso como uma máscara: e a mesma gaze de luto escondia o rostozinho da pequena, fazendo-lhe um laço sobre a touca. Miss Sara, numa ulster clara de quadrados, sobraçava um maço de livros. Atrás o Domingos, com os olhos muito vermelhos, segurava um rolo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto, que levava “Niniche” ao colo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a pelo braço, em silêncio, ao vagão-salão, que tinha todas as cortinas cerradas. Junto do estribo ela tirou devagar a luva. E muda, estendeu-lhe a mão.
─ Ainda nos vemos no Entroncamento − murmurou Ega. − Eu sigo também para o Norte.
Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao ver sumir-se naquela carruagem de luxo, fechada, misteriosa, uma senhora que parecia tão bela, de ar tão triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a portinhola, o Neves, o d’ “A Tarde” e do Tribunal de Contas, rompeu de entre um rancho, arrebatou-lhe o braço com sofreguidão:
─ Quem é?
Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cair no ouvido, já muito adiante, tragicamente:
─ Cleópatra!
O político, furioso, ficou rosnando: “Que asno! …”. Ega abalara. Junto do seu compartimento, Vila-ça esperava, ainda deslumbrado com aquela figura de Maria Eduarda, tão melancólica e nobre. Nunca a vira antes. E parecia-lhe uma rainha de romance.
─ Acredite o amigo, fez-me impressão! Caramba, bela mulher! Dá-nos uma bolada, mas é uma soberba praça!
O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um lenço de cores sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda furioso, vendo o Ega à portinhola, atirou-lhe de lado, disfarçadamente, um gesto obsceno.
No Entroncamento, Ega veio bater nos vidros do salão, que se conservava fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sara lia a um canto, com a cabeça numa almofada. E “Niniche” assustada ladrou.
─ Quer tomar alguma coisa, minha senhora?
─ Não, obrigada…
Ficaram calados, enquanto Ega, com o pé no estribo, tirava lentamente a charuteira. Na estação mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a máquina resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do salão, com olhares curiosos e já lânguidos para aquela magnífica mulher, tão grave e sombria, envolta na sua peliça negra.
─ Vai para o Porto? − murmurou ela.
─ Para Santa Olávia…
─ Ah!
Então Ega balbuciou com os beiços a tremer:
─ Adeus!
Ela apertou-lhe a mão com muita força, em silêncio, sufocada.
Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a tiracolo, que corriam a beber à cantina. À porta do bufete voltou-se ainda, ergueu o chapéu. Ela, de pé, moveu de leve o braço, num lento adeus. E foi assim que ele, pela derradeira vez na vida, viu Maria Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, à portinhola daquele vagão que para sempre a levava.

Eça de Queirós, Os Maias


I

1 – Integra o excerto na estrutura da obra a que pertence.

2 – Justifica a presença de Ega neste momento da intriga.

3 – O comportamento evidenciado por Ega neste passo contrasta com o de outros momentos da obra.
3.1 – Indica o sentimento que o domina neste momento, justificando a resposta com referências às atitudes que revelam tal sentimento.
3.2 – Transcreve dois advérbios de modo que salientem esse mesmo sentimento.
3.3 – Justifica a brevidade do diálogo entre ele e Maria Eduarda.

4 – O luto usado pelas personagens femininas tem uma justificação objectiva mas pode conter uma carga simbólica. Explicita uma e outra.

5 – Confronta a visão de Maria Eduarda que este excerto nos dá com a de outros momentos importantes da intriga.
6 – Atenta na expressão: “véu dobrado, espesso como uma máscara”.
6.1 – Classifica a figura de estilo presente na expressão sublinhada.
6.2 – Dá a tua interpretação pessoal acerca dessa expressão.

7 – Aponta marcas características da linguagem e do estilo queirosianos presentes no texto.

8 – O universo ficcional sugerido pelo título da obra cruza-se, neste como noutros passos, com o universo ligado ao subtítulo. Justifica esta afirmação com base no texto.


II

Atenta na seguinte frase:

A partir da acção fulcral − amores de Carlos e Maria Eduarda − Eça de Queirós pretendeu, em Os Maias, retratar a sociedade portuguesa dos fins do século XIX.

Numa composição cuidada, mostra como a acção central e a comédia de costumes se entrelaçam e se complementam artisticamente de forma a dar à obra uma unidade incontestável.