9.7.07

No dia seguinte, na estação de Santa Apolónia




No dia seguinte, na estação de Santa Apolónia, Ega, que viera cedo com o Vilaça, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou Maria, que entrava trazendo Rosa pela mão. Vinha toda envolta numa grande peliça escura, com um véu dobrado, espesso como uma máscara: e a mesma gaze de luto escondia o rostozinho da pequena, fazendo-lhe um laço sobre a touca. Miss Sara, numa ulster clara de quadrados, sobraçava um maço de livros. Atrás o Domingos, com os olhos muito vermelhos, segurava um rolo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto, que levava "Niniche" ao colo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a pelo braço, em silêncio, ao vagão, que tinha todas as cortinas cerradas. Junto do estribo ela tirou devagar a luva. E muda, estendeu-lhe a mão.
- Ainda nos vemos no Entroncamento - murmurou Ega. - Eu sigo também para o Norte.
Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao ver sumir-se naquela carruagem de luxo, fechada, misteriosa, uma senhora que parecia tão bela, de ar tão triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a portinhola, o Neves, o d' "A Tarde" e do Tribunal de Contas, rompeu de entre um rancho, arrebatou-lhe o braço com sofreguidão:
- Quem é?
Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cair no ouvido, já muito adiante, tragicamente:
- Cleópatra!
O político, furioso, ficou rosnando: "Que asno!..." Ega abalara. Junto do seu compartimento, Vilaça esperava, ainda deslumbrado com aquela figura de Maria Eduarda, tão melancólica e nobre. Nunca a vira antes. E parecia-lhe uma rainha de romance.
- Acredite o amigo, fez-me impressão! Caramba, bela mulher! Dá-nos uma bolada, mas é uma soberba praça!
O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um lenço de 30 cores sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda furioso, vendo o Ega à portinhola, ati-rou-lhe de lado, disfarçadamente, um gesto obsceno.
No Entroncamento, Ega veio bater nos vidros do salão, que se conservava fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sara lia a um canto, com a cabeça numa almofada. E "Niniche" assustada ladrou.
- Quer tomar alguma coisa, minha senhora?
- Não, obrigada...
Ficaram calados, enquanto Ega, com o pé no estribo, tirava lentamente a charuteira. Na estação mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a máquina resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do salão, com olhares curiosos e já lânguidos para aquela magnífica mulher, tão grave e sombria, envolta na sua peliça negra.
- Vai para o Porto? - murmurou ela.
-Para Santa Olávia...
- Ah!
Então Ega balbuciou com os beiços a tremer:
- Adeus!
Ela apertou-lhe a mão com muita força, em silêncio, sufocada.
Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a tiracolo, que corriam a beber à cantina. À porta do bufete voltou-se ainda, ergueu o chapéu. Ela, de pé, moveu de leve o braço, num lento adeus. E foi assim que ele, pela derradeira vez na vida, viu Maria Eduarda, gran-de, muda, toda negra na claridade, à portinhola daquele vagão que para sempre a levava.

Eça de Queirós, Os Maias


I


1. Recordando que n'Os Maias se entrelaçam dois níveis diegéticos:
1.1 Indique em que nível diegético se situa este excerto. Justifique.
1.2 Localize este excerto na acção d'Os Maias.

2. Justifique a presença de Ega neste momento da intriga.

3. O comportamento evidenciado por Ega neste passo contrasta com o de outros momentos da obra.
3.1. Indique o sentimento que o domina neste momento, justificando a resposta com referências às atitudes que revelam tal sentimento.
3.2. Justifique a brevidade do diálogo entre ele e Maria Eduarda.
3. Explicite devidamente o valor real e o valor simbólico do luto usado pelas personagens femininas.

4. Confronte a visão que este excerto nos dá de Maria Eduarda com a de outros momentos impor-tantes da intriga.

5. Releia a intervenção de Vilaça neste excerto.
5.1. Indique e comente o registo de língua por ele usado.
5.2. Indique a funcionalidade da sua intervenção neste contexto particular.

6. Atente na linguagem utilizada para caracterizar as atitudes do Neves.
6.1. Aponte e comente os aspectos estilísticos que exprimem a visão crítica do narrador sobre essa personagem.
6.2. Explicite o conteúdo dessa crítica.

7. Relacione este excerto com o universo ficcional sugerido pelo título da obra e com o universo ligado ao subtítulo. Justifique esta afirmação com base no texto.


II

«Os Maias são, superficialmente um fresco caricatural da sociedade portuguesa do séc. XIX em forma de crónica de costumes, com fortes características de romance folhetinesco. Retrato vivo e dramático, pintado com paciência, esmero, e um extraordinário sentido das cores e dos contrastes. Sem a vitalidade que a existência real oferece à ficção, o romance seria um monumental fracasso.»

Machado da Rosa, Eça, discípulo de Machado


Evocando a tua experiência de leitura, comenta, num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, o excerto transcrito.