20.7.07

D. Fernando, infante de Portugal



Deu-me Deus o seu gládio, por que eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.

Fernando Pessoa, Mensagem, Ed. Ática


I

Depois de uma leitura atenta, elabore um comentário global do poema de modo que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- o tema;
- o desenvolvimento do tema;
- a predestinação do sujeito poético;
- a importância do sonho;
- a expressividade da linguagem;
- a integração do texto na estrutura da obra.


II

Num texto bem organizado, de cento e cinquenta a duzentas palavras, e com base em leituras feitas dos poemas de Mensagem, comprove a verdade do verso a seguir transcrito.
«O mito é o nada que é tudo.»
Fernando Pessoa, Mensagem, Ed. Ática


III

Resuma o excerto seguinte, constituído por trezentas e oitenta e três palavras, num texto de cento e dezoito a cento e trinta e oito palavras.

Poderemos afirmar, com João Gaspar Simões, que «a ideia de escrever um livro da índole da Mensagem, posto tivesse surgido na mente de Fernando Pessoa muito cedo, muito tarde se concretiza - à volta de 1928»? Se «concretizar» significa «realizar», a concretização dura muitos anos, até 1934, data da publicação do livro: se quer dizer «delinear mentalmente», arriscado será aventar qualquer hipótese. O próprio João Gaspar Simões nos dá a conhecer «um apontamento escrito pelo punho do poeta que, embora não datado, deve pertencer à mesma época» (1913), e onde se regista, entre outros projectos, o da publicação dum livro intitulado Gládio: «Gládio - (1) Portugal, (2) Prélio, (3) Mística, (?). Ora os títulos das três partes projectadas parecem corresponder ao plano a que viria a obedecer a Mensagem: Portugal a Brasão, definição poética da nobreza essencial de Portugal; Prélio a Mar Português, cujo lema é «possessio maris» por oposição a «bellum sine bello», lema da primeira parte; Mística a O Encoberto, porquanto místico é na ver¬dade o conteúdo profético da terceira parte, a justificar o lema «Pax in excelsis». Por outro lado, o nacionalismo profético, utópico, impregnava já os artigos de 1912 sobre «A nova poesia portuguesa», onde se anunciava um «supra-Camões». Aliás, numa entrevista ao Diário de Lisboa de 14-XII-1934, o poeta declarou que a Mensagem cristalizara no seu espírito na época do Orpheu (1915). O poema À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, inserto no jornal Acção em Fevereiro de 1920, preludia o profetismo da Mensagem / morto Sidónio, «Precursor do que não sabemos, / Passado de um futuro a abrir», Fernando Pessoa antevê nova encarnação do Encoberto, «um novo verbo ocidental / Incarnado em heroísmo e glória». Portanto, é possível que o autor tenha concebido, nas suas linhas gerais, a Mensagem muito antes de 1928. Mas não há dúvida que as datas acima apontadas revelam que a obra nasce principalmente de três períodos criadores: do primeiro, entre 1918, se não antes, e 1922, resulta Mar Português; o segundo são os últimos meses de 1928, em que surgem predominantemente composições de Brasão; o terceiro são os primeiros meses de 1934, que precedem imediatamente a publicação do volume. Nesta última fase terá Fernando Pessoa integrado todas as poesias já escritas na rigorosa arquitectura (de inspiração heráldica, em Brasão em que por fim se fixou.

Jacinto do Prado Coelho, A Letra e o Leitor, Moraes Ed. (pp.229-230)