2.7.07

Casinhas de prazeres



Moro num 13.º andar, sem prédios do outro lado da rua. Ao longe, vejo a Serra de Sintra. Fm frente, passam aviões e, lá em baixo, distantes, automóveis. Estou na minha torre. Levará muitos anos, suponho, até os estendais cie roupa interior dos vizinhos entrarem na minha intimidade. Imaginava-me, pois, um lis-boeta afortunado. Ate que um amigo mais perspicaz comentou assim: «A tua casa tem um grande defeito. Não consegues ver as casas dos outros. Nunca poderão viver aqui pessoas de idade como a tua mãe ou os teus sogros.» Verdade.
Aqui recuei à infância, na ilha. Cresci num casarão de família, com grande quintal, não sei quantos quartos e janelas sobre a vizinhança. O chá que tomámos em meninos, ou aquilo que se convencionou chamar educação, impedia-nos de espreitar indiscretamente para os territórios vizinhos. Tínhamos pudor em comentar porta a porta a vida alheia e muito menos «bilhardar» - sinónimo ilhéu do verbo mexericar.
Mas, por detrás desta compostura burguesa, todas as janelas da minha rua estavam aparelhadas com tapa-sóis em tabuinhas de madeira, à italiana; os quais possuem ripas centrais móveis, de articulação horizontal, adaptadas ao olhar, de modo a afinar o ângulo discreto da visão aos acontecimentos da vizinhança. E assim se criava um voyeurismo típico da Rear W/wi/oio' de Hitchcock, salvas as devidas proporções. Como nas nossas famílias coabitavam várias gerações, com um excesso de tias-avós solteironas, encontrava-se assim adequada ocupação às tristes donzelas sem outros entreténs para além dos folhetins do Diário de Notícias e dos espectáculos trimestrais dos manos Clodes na Sociedade de Concertos da Madeira.
Sabíamos quem entrava ou saía, a que horas almoçava o senhor Jaime da Botica e até seria possível calcular o volume de negócios do senhor Leonel da Drogaria Insulana, a avaliar pelas vezes que manufacturava, no terraço da sua residência - com toda a assepsia, aliás -, a milagrosa Pomada de São Tomé -esplêndido calicida, anriescrofuloso, contra borbulhas e furúnculos, impigens e outras maleitas da pele.
Esta actividade voyeurista era tão importante que, nos anos, quando o meu avó quis construir a casa em local de fundações fáceis, a meio da propriedade, logo o elemento feminino contestou. Qual nada, teria de ser à beira da Rua Conde Carvalhal, para ver quem passava.
As moradias funchalenses dessa época possuíam curiosos anexos, em mirante, sobre os caminhos, com telhados de colmo ou folha-de-flandres e janelas de tapa-sóis. Chamavam-se «casinhas de prazeres». Mais do que locais para amores fortuitos - aliás, rapidamente detectá-veis -, destinavam-se à arte de bisbilhotar, ao prazer de ver sem ser visto, enquanto se fazia renda, bebendo chazinho com leite ou algum sumo de maracujá.
Nunca tivemos casinha de prazeres. Naturalmente desnecessária, porquanto os andares desafogados sobre a estrada dominavam quanto baste as redondezas. Recordo-me de um episódio, aí por 1957, quando a menina Quintal, nossa vizinha do lado, recebeu a irmã e o cunhado, retornados de África. Pois no dia da chegada, lá estava a minha tia Fernanda, por detrás dos tapa-sóis, no registo dos acontecimentos. E aqui, o suspense.
Depois das malas de porão, desembarcaram caixotinhos com respiradouros em arame de galinheiro, por onde espreitavam dúzias de orelhas, e nem os binóculos-pérola de levar aos concertos do teatro - substituídos mais tarde por prismáticos japoneses adquiridos de contrabando em Canárias - permitiram ™ identificar a fauna enjaulada. Eram simplesmente rafeiros afr-canos, João, José, Luís, Alice, etc., todos com nome de gente, que dormiam dentro de casa, em camas individuais, com cobertas próprias.
Entretanto, não batia a bota com a perdigota. Porque, por muitos apuros contabilísticos, sobrava um cão ou faltava um enxoval. Até se descobrir que o caçula chamado «Bebé» era teúdo e manteúdo no próprio tálamo conjugal dos novéis vizinhos. O Senhor Ministro - petit nonr logo atribuído pela minha tia Fernanda ao africanista, considerando a pose, a indumentá-ria, o chapéu de coco, o discurso palavroso ã lisboeta do Porto Santo... -, dizia eu, quem o vis-se, impante, mandando postas de pescada na esplanada do Golden, nunca imagina- &u ria encontrar-se perante o pai da mais ampla cachorrada.
Costume bárbaro felizmente em desuso, este voyeurismo? Nem tanto. Ignoro completamente o dia-a-dia dos meus condóminos de patamar. Nem sei se têm periquitos em casa. Estamos à vontade. Mas quebrou-se algum espírito de solidariedade e de entreajuda, sedimentado naturalmente nessas pequenas inconfidências secretamente partilhadas. E o certo é que estamos mais sós. Fazia-me falta uma casinha de prazeres.

Ricardo França Jardim, Arsénico e Rendas Velhas, s. d.



Expressão francesa: alcunha só conhecida t utilizada por um círculo restrito de pessoas.



I

1. Divida o texto em partes lógicas, justificando essa divisão.

2. Atente nas expressões:
«com toda a assepsia» (l. 28); «actividade voyeurista» (l. 31); «amores fortuitos» (l. 38); «não batia a bota com a perdigota» (l. 54]; «teúdo e manteúdo» (l. 56); «tálamo conjugal» (l, 56); «mandando postas de pescada» (l. 60); «inconfidências secretamente partilhadas» (II. 65-66).
2.1. Procure esclarecer o seu sentido.
2.2. Identifique os registos de língua utilizados.

3. Segundo a memória evocada no texto, que elementos das famílias funchalenses sentiam mais necessidade de observar a vida dos outras? Porquê? Recolha do texto as expressões que fundamentam as respostas anteriores.

4. O cronista narra-nos um episódio sucedido com a irmã e o cunhado da menina Quintal, retornados de África,
4.1. Reconte esse episódio.
4.2. Mostre que a curiosidade dos observadores era muito forte.

5. «E o certo é que estamos mais sós. Fazia-me falta uma casinha de prazeres.»
Comente a observação final do cronista, discutindo, nomeadamente, se pode haver um lado positivo na curiosidade em relação aos outros.