3.6.07

O Velho e o Mar





Sentiu-se de novo a desmaiar, mas segurou no grande peixe com quanta força pôde. "Mexi-o, pen-sou. Talvez que desta vez o apanhe. Puxem, mãos. Aguentem, pernas. Cabeça, não me falhes. Não me falhes. Nunca me falhaste. Desta vez, apanho-o".
Mas, quando empregou a fundo o seu esforço, começando muito antes de o peixe estar ao pé do barco, aquele voltou-se, endireitou-se, e nadou para longe.
- Peixe! - disse o velho. - Peixe! Seja como for, tu vais morrer. Precisas também de me matar?
"Assim não se consegue nada", pensou. A boca, muito seca, não o deixava falar, mas não podia chegar à água. "Já não aguento muitas mais voltas. Sim, aguentas, disse consigo. Aguentas como nunca".
Na volta seguinte, quase o apanhou. Mas mais uma vez o peixe se endireitou e nadou devagar para longe.
"Tu estás a matar-me, peixe, pensou o velho. Mas tens todo o direito. Nunca vi uma coisa maior, ou mais bela, ou mais serena ou mais nobre do que tu, meu irmão. Vem e mata-me. Não quero saber qual de nós mata".
"Agora estás tu a perder a cabeça, pensou. E não deves perder a cabeça. Não a percas, e aprende a sofrer como um homem. Ou como um peixe".
- Reanima-te, cabeça - disse numa voz que mal ouvia. - Reanima-te.
Duas vezes mais aconteceu o mesmo.
"Não sei", pensou o velho. Estivera a ponto de sentir-se morrer, de cada vez. "Não sei. Mas torno a tentar".
Tornou a tentar, e sentiu-se esmorecer, quando voltou o peixe. O peixe endireitou-se, e afastou-se outra vez, lentamente, com a grande cauda balouçando no ar.
"Torno a tentar", prometeu o velho a si próprio, embora nem sentisse as mãos e ape¬nas visse por lampejos.
Tentou de novo, e foi o mesmo. "Pois é", pensou, e sentia-se desfalecer, antes de prin¬cipiar; "hei-de tornar a tentar".
Convocou toda a sua dor, quanto lhe restava de forças, e o seu orgulho perdido, e tudo lançou contra a agonia do peixe, e o peixe veio rente à borda e nadou mansamente junto à borda, com o nariz quase roçando o costado do barco, e começou a passar-lhe por baixo, longo, fundo, largo, prateado, listrado de púrpura, interminável nas águas.
O velho largou a linha, calcou-a com o pé, levantou o arpão ao alto e fê-lo descer, com toda a for-ça que tinha e mais força que no momento invocou, pelo flanco do peixe aden¬tro, mesmo por trás da grande barbatana peitoral que alta se erguia no ar à altura do peito do homem. Sentiu o ferro entrar e debruçou-se sobre ele e fê-lo entrar mais e car¬regou depois com o seu peso em cima.

Ernest Hemingway, O Velho e o Mar



I

Assinala com V ou F as afirmações que julgues verdadeiras ou falsas.

1.0 velho pescador falava:
a) consigo mesmo;
b) corn os outros pescadores;
c) com o seu amigo Manolin.

2. O velho pescador estava interessado:
a) em ver a grandeza do peixe;
b) em evitar a perseguição do peixe;
c) em pescar o peixe.

3. Ao ver o peixe, o velho pescador ficou:
a) admirado com o seu tamanho;
b) admirado com a sua beleza;
c) desiludido com a sua fealdade.

4. O velho pescador viveu um drama. Esse drama era:
a) matar o peixe;
b) não conseguir matar o peixe;
c) temer que o peixe o matasse.

5. O velho pescador teve sorte porque:
a) o peixe se deixou apanhar facilmente;
b) o arpão entrou no sitio certo do peixe;
c) o peixe não era assim tão grande e perigoso.


II

1. Verificando a grandeza do peixe, em quem confiou o pescador para o vencer?
1.1. Transcreve os elementos textuais que comprovam a tua resposta.

2. Faz a caracterização do peixe.

3. A luta entre o pescador e o peixe pode considerar-se um pequeno drama.
3.1. No que diz respeito apenas ao pescador, em que consiste esse drama?
3.2. E na relação do pescador com o peixe?

4. O pescador trata o peixe com uma atitude de superioridade ou com uma atitude de fraternidade?
4.1. Encontra as palavras que demonstram a tua afirmação.

5. No texto, repete-se cinco vezes o verbo "tentai".?
5.1. Identifica o objectivo dessa repetição.

6. "Convocou toda a sua dor, quanto lhe restava de forças, e o seu orgulho perdido."
6.1. Explica o sentido desta afirmação.
6.2. Das três realidades mencionadas, qual te parece a mais forte? Porquê?

7. Comprova que este texto se insere no género narrativo.

8. Paralelamente à luta entre o pescador e o peixe, podemos falar da luta entre o homem e o mar.
8.1. Comprova esta afirmação através de um episódio de Os Lusíadas.


III

1. "Mais uma vez o peixe se endireitou e nadou devagar para longe."
1.1. Classifica esta frase quanto ao tipo e à forma.
1.2. Divide as suas orações.
1.3. Classifica essas orações, indicando a relação que se estabelece entre elas.

2. Completa as frases:
a) Se o pescador __(desistir), não teria conseguido o objectivo.
b) Quando nós ___ (querer) chegar ao fim dum trabalho importante, teremos de enfrentar as ____ e nunca desistir.
c) Embora ______ (poder) ter problemas, a força de _vence sempre.


3. "Não a percas, e aprende a sofrer como um homem."
3.1. Explica o sentido da frase transcrita.
3.2. Indica a figura de estilo nela presente.

4. "Puxem, mãos. Aguentem, pernas. Cabeça, não me falhes."
4.1. Refere as figuras de estilo presentes nestas frases.
4.2. Explica o sentido dessas figuras.


IV

"Não há bem que sempre dure. Quem me dera que tivesse sido um sonho, que eu não tivesse pescado o peixe e estivesse sozinho na cama, em cima dos jornais."
- Mas o homem não foi feito para a derrota - disse. - Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.

Ernest Hemingway, O Velho e o Mar


Com base na leitura deste excerto, propomos-te dois temas. Escolhe aquele que mais te interessar e desenvolve-o num texto bem estruturado.

Tema A: A importância do sonho para todos e, de forma especial, para os jovens.
Tema B: Querer é poder. Ninguém foi feito para a derrota.