18.6.07

Maria Monforte





Não a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido de negro, que fumava encostado à outra ombreira, numa pose de tédio—vendo o violento interesse de Pedro, o olhar aceso e perturbado com que seguia a caleche trotando Chiado acima, veio tomar lhe o braço, murmurou lhe junto à face na sua voz grossa e lenta:
—Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e os feitos principais? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso Alencar, uma garrafa de champanhe?
Veio o champanhe. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos anéis da cabeleira e pelas pontas do bigode, começou, todo recostado e dando um puxão aos punhos:
—Por uma doirada tarde de Outono...
—André—gritou Pedro ao criado, martelando o mármore da mesa— retira o champanhe!
O Alencar bradou, imitando o actor Epifànio:
—O quê! Sem saciar a avidez do meu lábio?...
Pois bem, o champanhe ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o poeta das “Vozes de Aurora’’, explicaria aquela gente da caleche azul numa linguagem cristã e prática!...
—Aí vai, meu Pedro, aí vai!
Havia dois anos, justamente quando Pedro perdera a mamã, aquele velho, o papá Monforte, uma manhã rompera subitamente pelas ruas e pela sociedade de Lisboa naquela mesma caleche com essa bela filha ao seu lado. Ninguém os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a aparecer em S. Carlos, fazendo uma impressão—uma impressão de causar aneurismas, dizia o Alencar! Quando ela atravessava o salão, os ombros vergavam se no seu deslumbramento de auréola que vinha daquela magnífica criatura, arrastando com o passo de deusa a sua cauda de corte, sempre decotada como em noites de gala, e, apesar de solteira, resplandecente de jóias. O papá nunca lhe dava o braço: seguia atrás, entalado numa grande gravata branca de mordomo parecendo mais tisnado e mais embarcadiço na claridade loira que saía da filha, encolhido e quase apavorado, trazendo na mão o óculo, o libreto, um saco de bombons, o leque e o seu próprio guarda chuva. Mas era no camarote, quando a luz cata sobre o seu colo ebúrneo e as suas tranças de oiro, que ela oferecia verdadeiramente a encarnação de um ideal da Renascença, um modelo de Ticiano... Ele, Alencar, na primeira noite em que a vira, exclamara, mostrando a a ela e às outras, as trigueirotas de assinatura:
—Rapazes! É como um ducado de oiro novo entre velhos patacos do tempo do senhor D. João Vl!
O Magalhães, esse torpe pirata, pusera o dito num folhetim do “Português”. Mas o dito era dele, Alencar!
Os rapazes, naturalmente, começaram logo a rondar o palacete de Arroios. Mas nunca naquela casa se abria uma janela. Os criados interrogados disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava Manuel. Enfim uma criada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem era taciturno, tremia diante da filha, e dormia numa rede; a senhora, essa, vivia num ninho de sedas todo azul ferrete, e passava o seu dia a ler novelas. Isto não podia satisfazer a sofreguidão de Lisboa. Fez se uma devassa metódica, hábil, paciente... Ele, Alencar, pertencera à devassa.
E souberam se horrores. O papá Monforte era dos Açores; muito moço, uma facada numa rixa, um cadáver a uma esquina tinham no forçado a fugir a bordo de um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da Casa de Taveira, que o conhecera nos Açores, estando na Havana a estudar a cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas ilhas, encontrara lá o Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando pelo cais, de chinelas de esparto, à procura de embarque para a Nova Orleães. Aqui havia uma treva na história do Monforte. Parece que servira algum tempo de feitor numa plantação da Virgínia... Enfim, quando reapareceu à face dos céus, comandava o brigue “Nova Orleães’’, e levava cargas de pretos para o Brasil, para a Havana e para a Nova Orleães.
Escapara aos cruzeiros ingleses, arrancara uma fortuna da pele do africano, e agora rico, homem de bem, proprietário, ia ouvir a Corelli a S. Carlos. Todavia esta terrível crónica, como dizia o Alen-car, obscura e mel provada, claudicava aqui e além...
—E a filha?—perguntou Pedro, que o escutara, sério e pálido.
Mas isso não o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim tão loira e bela? Quem fora a mamã? Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar se com aquele gosto real no seu xale de Caxemira?...
—Isso, meu Pedro, são mistérios que jamais pôde Lisboa astuta devassar e só Deus sabe!


Eça de Queirós, Os Maias



I

1. O texto gasta-se todo na elaboração de dois retratos: o de Alencar e o de Maria Monforte.
Mostre que a caracterização directa de Alencar está de acordo com a sua caracterização indirecta.
1.2. Que espécie de personagem é esta e qual a sua função na economia da obra?
1. 3. A caracterização de Maria Monforte processa se em três planos (a três níveis).
1.3.1. Como é apresentada esta personagem no primeiro plano? Este retrato representa a maneira de ver de quem? Será um retrato clássico, realista ou romântico?
1.3.2. Donde provêm as informações que constituem a caracterização do segundo plano? Esta segunda caracterização é mais ou menos abonatória que a primeira? Justifique a resposta.
1.3.3. Procure mostrar, se está de acordo, que o terceiro plano da caracterização de Maria Monforte (o que proveio de uma devassa metódica) obedece aos princípios do romance naturalista, se atendermos à relação de causalidade que se supõe existir entre esta personagem e os acontecimentos futuros da intriga central.

2. Que pontos de vista do narrador pode detectar no texto?