10.6.07

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há Luar!

Os últimos dias destruíram Sousa Falcão. Adquiriu, todavia, uma calma e uma paz interior que nunca tivera, talvez por ter revisto a sua concepção da posição do homem no mundo.
MATILDE: É o melhor dos amigos, António.
SOUSA FALCÃO: Nem isso sou! Só é digno de ser amigo de alguém quem de si próprio é amigo, Matilde, e eu odeio-me com toda a força que me resta.
Fosse eu digno da ideia que de mi m mesmo tinha, e estava lá em baixo, em S. Julião da Barra, ao lado de Gomes Freire, esperando a morte...
Quando os justos estão presos, só os injustos podem ficar fora das cadeias e eu, Matilde, vendi-me para estar, agora, aqui, a vê-lo morrer. As ideias de Gomes Freire são também as minhas, mas ele vai ser enforcado -e eu não.
Os motivos que os governadores tiveram para prendê-lo, também os tiveram para me prenderem a mim, mas a ele prenderam-no -e a mim não.
Faltou-me sempre coragem para estar na primeira linha...
Durante estes meses, duas vezes dei comigo à berma de lhe chamar louco, para desculpar a minha própria cobardia.
Há homens que obrigam todos os outros homens a reverem-se por dentro...
É por mim que estou de luto, Matilde!
Por mim...
MATILDE: ...Isto é o fim, António... Aceitou o inevitável.
SOUSA FALCÃO: É o fim... Quando virmos, lá em baixo, o clarão da fogueira, já ele morreu...
MATILDE: O clarão da fogueira! Quando o virmos, já ele está aqui ao pé de nós! Foi para o receber que eu vesti a minha saia verde!
(Pausa)
A partir deste momento os gestos e as palavras de Matilde são quase infantis. Está a despedir--se do homem que amou e fá-lo com uma ternura infinita e uma dignidade que a ninguém passa despercebida.
Vem dizer-nos adeus, António, vem abraçar-nos pela última vez. Nunca partiu para uma batalha sem se despedir de mim e, agora, que se acabaram só as batalhas, vem apertar-me contra o peito! [...]

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há Luar!


I

Após uma leitura atenta do excerto transcrito, elabore um comentário global de modo que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- os enquadramentos nas estruturas externa e interna;
- o relacionamento do sentimento de ódio com o paralelismo antitético entre duas personagens;
- as figuras de estilo e o seu valor expressivo;
- o símbolo da fogueira;
- a prosódia e a expressividade da linguagem, em Matilde.


II

Num texto bem organizado, de setenta a cem palavras, comprove que a afirmação seguinte bem pode aplicar-se à obra Felizmente há Luar!.
Luís de Sttau Monteiro, numa entrevista que concedeu ao Jornal de Letras, afirmou: «Para mim há uma coisa sagrada: ser livre como o vento.»


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e setenta e sete palavras, num texto de cento e dezasseis a cento e trinta e seis palavras.

Na sequência de uma carta de protesto contra a proibição, são presos por alguns dias, com grande escândalo nacional e internacional, vários dos «intocáveis» do oposicionismo: António Sérgio, Jaime Cortesão, Azevedo Gomes e Vieira de Almeida. E, em Maio de 1961, os 62 subscritores do Programa para a Democratização da República, entre liberais e homens da esquerda socialista (Azevedo Gomes, Acácio Gouveia, Mário Soares, Piteira Santos, Ramos da Costa e mui¬tos outros), são sucessivamente detidos pela polícia política. Os organismos unitários surgidos em fins de 1959 - as juntas de acção patriótica -, agrupando sobretudo personalidades comunistas e da esquerda oposicionista, são, por seu turno, alvo de duras medidas de repressão e desmantelamento nos anos seguintes, levando à prisão e a julgamento homens como Arlindo Vicente, Areosa Feio, Luís Dias Amado ou Nikias Skapinakis. Nem o escritor Aquilino Ribeiro se furta ao novo rigor repressivo: em Outubro de 1959 é processado por causa do livro Quando os Lobos Uivam, entretanto apreendido.
Em fundo, uma resposta implacável à agitação social e política que abala o País entre 1958 e 1962: a GNR e a polícia (a polícia de choque faz a sua estreia em Novembro de 1961) reprimem com violência e com alguns mortos as manifestações públicas que marcam as comemorações do 5 de Outubro, do 1° de Maio, do 31 de Janeiro, os protestos contra as «farsas eleitorais» de 1958 e 1961, as greves de estudantes de 1962 ou as lutas pelas oito horas de trabalho, no mesmo ano, no Alentejo.
A crispação repressiva de um regime crescentemente isolado e em luta por sobreviver é um traço que não mais abandonará o salazarismo até 1968. Só com a tropa, compreensivelmente, ele terá algum cuidado: os conspiradores militares da Sé são tratados com evidente brandura, e os putschistas da «Abrilada» de 1961 nem sequer serão incomodados. Mas o assato ao Quartel de Beja, em Janeiro de 1962, iniciativa mais desligada da hierarquia militar, voltará a ser alvo de uma duríssima repressão. Entre 1958 e 1960 a curva de presos políticos volta a subir: nesses dois anos, útimos em que se dispõe de dados compilados, a PIDE prende perto de 1200 pessoas. Mas só em cada um dos dois anos seguintes o número de presos políticos terá sido superior àquele valor.

José Mattoso (orient.), História de Portugal, VII vol. -
«O Estado Novo», Círculo de Leitores