25.6.07

Conde de Gouvarinho

O conde, modestamente, protestou. Não: tinha simplesmente lançado uma palavra de bom senso, e de bom princípio. Perguntara apenas ao seu ilustre amigo, o Sr. Torres Valente, se, na sua ideia, os nossos filhos, os herdeiros das nossas casas, estavam destinados para palhaços!...
- Ah, esta piada, senhora condessa! exclamou o velho. Eu só queria que Vossa Excelência ouvisse esta piada... E como ele a disse! com um chique!
O conde sorriu, agradeceu para o lado, ao velho. Sim, dissera-lhe aquilo. E, respondendo a outras reflexões do Torres Valente, que não queria nos liceus, nem nos colégios, um ensino "todo impreg-nado de catecismo", ele lançara-lhe uma palavra cruel.
- Terrível - exclamou o velho num tom cavo, preparando o lenço para se assoar outra vez.
- Sim, terrível... Voltei-me para ele e disse-lhe isto: "Creia o digno par que nunca este país retomará o seu lugar à testa da civilização, se, nos liceus, nos colégios, nos estabelecimentos de instrução, nos outros os legisladores formos, com mão ímpia, substituirá cruz pelo trapézio..."
- Sublime - rosnou o velho, dando um ronco medonho dentro do lenço. Carlos, erguendo-se, decla-rou aquilo de uma ironia adorável.

Eça de Queirós, Os Maias



I

1. Refere o valor estilístico do advérbio de modo na frase que abre o excerto: "O conde, modesta-mente, protestou", tendo em conta a leitura global do texto.
2. Refere a posição enunciada pelo Conde de Gouvarinho em relação à educação em Portugal.
2.1, Transcreve a expressão que sintetiza a sua opinião.
3. Tendo ern conta a situação apresentada, refere a crítica subjacente às opiniões e atitudes do velho.
3.1 Identifica três recursos estilísticos que contribuem para a sua caracterização (transcreve as expressões em que estes se evidenciam).
4. Explica o sentido da intervenção de Carlos.
4.1. Justifica o facto de, ao contrário do que acontece em relação às outras personagens, a sua opinião ser emitida através do discurso indirecto.


II

1. Refere a tua perspectiva de leitor da obra Os Maias, de Eça de Queirós, em relação à função da personagem Carlos da Maia na construção da crónica de costumes.