30.6.07

Ao Gás




E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

(...)
Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós de arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

"Dó da miséria!... Compaixão de mim!..."
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso
Meu velho professor nas aulas de Latim!


Cesário Verde, O sentimento de um Ocidental


I

1. A partir do texto Ao Gás explicita o tipo de poesia que Cesário deseja escrever: Não esqueças de relacionar com outras leituras da poesia deste poeta.

2. A figura feminina é uma presença constante na obra poética de Cesário Verde.
2.1 Relaciona a presença magnética desta «lúbrica pessoa» com o espaço envolvente.
2.2 Explica, tendo em conta o modus vivendi desta mulher e o modus vivendi do velho professor de latim, como se procede à crítica social neste excerto de «O sentimento de um Ocidental».

3. Identifica e explica a relevância dos recursos expressivos usados na configuração deste texto.

4. O heterónimo pessoano Alberto Caeiro afirmou, a respeito de Cesário Verde, que ele era um camponês que andava preso em liberdade pela cidade. Demonstra que esta afirmação se pode articular com o poema «O sentimento de um Ocidental».


II

Dos temas seguintes escolhe apenas um:

A
«Cesário foi um dissidente, na exacta medida em que, atento à lição dos realistas, dos parnasia-nos, dos naturalistas e dos românticos, constituiu e desenvolveu um projecto poético próprio, que não é realista, nem parnasiano, nem naturalista, nem romântico e, muito menos, a mera confluência destas poéticas.»

Num texto expositivo-argumentativo bem estruturado (duzentas a trezentas palavras), indica o projecto poético de Cesário.


B
«Mas artista, em Cesário [...], não é o que se limita a copiar o real, é o homem de imaginação privilegiada que dá sentido às coisas que cria, a partir do concreto, uma super-realidade.»
Jacinto do Prado Coelho, «Cesário e Baudelaire», Problemática da História Literária

Comente, num texto expositivo-argumentativo bem estruturado as ideias presentes neste excerto.