11.5.07

Pedaços de ternura



SAIO DE CASA CEDO. Entro na leitaria da esquina, peço a meia de leite e a empada. É sábado, o dia veste de azul e oiro, gente passa de calção e toalha, na gula da praia que se despede. Mas ainda cheira a Verão: há que aproveitá-lo.
Enquanto trinco o salgado, os olhos prendem-me no letreiro defronte: Tabacaria Nónó. É isso: sem que a gente tenha consciência do que se está a passar, acontece que Lisboa se foi enchendo de dísticos como aquele, de nomes naquela linha. Leitarias Mimi. Tabacarias Lulu, Filó, Mariazinha. Snacks Ó Julinho, Olh'a Fifi, O Manecas. Bares Géninha, Momocas. Um nunca acabar de espantos.
No primeiro instante, a gente olha, lê e sorri para dentro. "Meu Deus! Que piroseira!". Mas não será tanto. No fundo, a ânsia natural e quase comovente de quem sabe que não vai ficar na História e tem necessidade de, pelo menos enquanto vivo, sentir que todos, muitos, alguns, lhe repetem o nome(zinho). Ou a necessidade de se gritar ao vento aquele sentimento terno, e doce que nos vai no coração, numa homenagem amorosa ao neto, à companheira de toda uma vida, ao mais-que-tudo, à filha que só agora aprendeu a ler. "Estás a ver? O papá pôs o teu nome à entrada. Lê lá , para a mamã ouvir..." E o monstrozinho, gordo de sopa, a soletrar, com um esforço, uma concentração que toda a família à volta segue com unção: "Ca... ca... café
Dó... dori... Café Dórinha... "
No fundo, a reacção natural e instintiva dos anónimos à selva desumanizada e violenta que os rodeia. Pedaços de ternura tremelicando, a medo, num céu de treva densa.

Guilherme de Melo, Diário de Notícias

I

1.Identifica o assunto do texto.

2.Refere a tua opinião acerca do título.

3." (...) Lisboa se foi enchendo de dísticos como aquele (...)"
3.1.Indica as razões que, segundo o autor do texto, levaram ao aparecimento de dísticos por toda a cidade.
3.2.Indica a tua própria opinião sobre este assunto.

4.Explica por palavras tuas o significado das expressões
a) "(...) o dia veste de azul e oiro (...)" (2ª linha);
b) "(...) na gula da praia que se despede. Mas ainda cheira a Verão (...)" (linhas 3 e 4).
4.1.Identifica o(s) recurso(s) expressivo(s) presente(s) nas expressões citadas.
4.2.Identifica também o(s) recurso(s) expressivo(s) presente(s) em "(...) todos, muitos, alguns, lhe repetem o nome(zinho)."
4.2.1.Analisa morfologicamente todas as palavras da expressão transcrita.
4.2.2.Indica a razão que terá levado o autor a utilizar os parêntesis em "nome(zinho)".

5.Substitui a expressão "naquela linha" (2º parágrafo) e as palavras "ânsia" e "unção"(3º parágrafo)por uma expressão e palavras sinónimas.

6.Identifica o(s) processo(s) de formação de palavras utilizados em
a)"mais-que-tudo";
b)"desumanizada".

7.Explica a utilização das reticências na última frase do 3º parágrafo ( " Ca... ca... café Dó... dori... Café Dórinha..." ).

8.Prova que este texto não é uma notícia, tendo em conta:
a) a pessoa gramatical predominante;
b) objectividade / subjectividade;
c) a(s) função (funções) da linguagem predominante(s);
d) o objectivo principal do texto.

9.Relê agora o último parágrafo do texto.
9.1.Transmite, por palavras tuas, o sentido deste parágrafo.
9.2.Tendo em conta a tua resposta à questão 8, bem como tudo o que aprendeste sobre a notícia no decurso das aulas, imagina o título e o lead de uma notícia na qual esteja espelhada a desumanização e a violência que nos rodeia.



Nota:

A frase contida no título da notícia por ti redigida deverá estar na forma passiva.