29.5.07

O descobridor da Islândia (II)


Um deles, sempre mais calado e solitário, preparou instrumentos e pôs-se a pescar. Não teve que esperar muito para que um peixe gordo e luzidio lhe viesse parar às mãos. Claro que o exemplo foi seguido e, nessa noite, regalaram-se com um verdadeiro banquete: peixe fresco nas brasas.
De roda da fogueira conversaram até altas horas da noite. O Sol não se punha mas a luz declinava, tornando-se pálida, derramando ouro pelas encostas.
- Esta ilha não tem dono - diziam.
- Fica para nós.
- Temos que lhe dar nome.
- Cá por mim escolhia Ilha do Quente e Frio.
- Ilha dos Mil Vulcões é mais bonito.
- Não gosto - atalhou Naddod. - E como quem manda sou eu, fica Terra de Neve, Snowland.
Habituados a obedecerem-lhe, todos concordaram. Todos menos um. Ingolf, o solitário, o silencioso, guardava para si os pensamentos mais íntimos. Sendo casmurro, decidiu logo que o nome seria outro, mas parecia-lhe inútil desafiar o chefe. Naddod era um verdadeiro pirata e não conseguia estar muito tempo no mesmo lugar. O mais certo era não tornar a pôr os pés naquela terra, onde não havia nada que se roubasse.
"Ele que diga os nomes que lhe apetecer", pensou. "A última palavra será minha."
Maravilhado com a paisagem, Ingolf tomara uma resolução: abandonar a pirataria. De regresso a casa, tencionava reunir um grupo de gente corajosa e conduzi-la para ali. 'Podiam instalar-se à vontade e viver bem. No seu espírito bailavam planos estupendos. Levaria carneiros e renas, porque havia pastos com fartura. E instrumentos para a pesca e para a caça, pois a ilha não era habitada mas tinha ursos brancos e raposas.
- Que ricas peles! Não nos vai faltar nada!
Satisfeito, abençoou os ventos que o tinham conduzido àquela terra linda e solitária como ele. Ingolf odiava ser pirata, não por falta de energia e resistência, não por medo, mas porque roubar e matar gente não lhe dava prazer nenhum.
De olhos fechados inspirou o ar frio, enquanto apertava entre os dedos um pedaço de gelo.
"Há-de ser minha e chamar-se Terra do Gelo, Iceland, Islândia."

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Histórias e Lendas da Europa


I


1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Naddod não iria mais àquela ilha porque:
a. não era um verdadeiro pirata
b. era ele quem mandava
c. não havia nada para roubar

1.2. Ingolf era:
a. solitário e medroso
b. decidido e determinado
c. apático e inseguro

2. Como se pode justificar que "peixe fresco nas brasas" fosse ou tenha sido um verdadeiro banquete?

3. Relê o segundo parágrafo.
3.1. Conversaram até altas horas da noite, embora o Sol não se tivesse posto. Explica a contradição desta afirmação.
3.2. Na expressão "(...) mas a luz declinava, (...) derramando ouro pelas encostas" está presente uma figura de estilo. Identifica-a e explica-a.

4. A segunda parte do texto é dedicada à personagem Ingolf.
4.1. Qual foi a estratégia que adoptou para se assenhorear da ilha?
4.2. De que forma a sua maneira de ser o ajudou nessa estratégia?
4.3. O que o levou a abandonar a pirataria?

II

Com base no excerto analisado e também com a ajuda de transcrições, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a oportunidade da citação do provérbio:

A ocasião faz o ladrão.