21.5.07

Entravam então no perestilo do Hotel Central





Entravam então no perestilo do Hotel Central—e nesse momento um coupé da Companhia, chegando a largo trote do lado da Rua do Arsenal, veio estacar à porta.
Um esplêndido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo à portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra, passou lhe para os braços uma deliciosa cadelinha escocesa, de pêlos esguedelhados, finos como seda e cor de prata; depois, apeando se, indolente e poseur, ofereceu a mão a uma senhora alta, loira, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea. Craft e Carlos afastaram se, ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar. Trazia um casaco colante de veludo branco de Génova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz das suas botinas. O rapaz ao lado, esticado num fato de xadrezinho inglês, abria negligentemente um telegrama; o preto seguia com a cadelinha nos braços. E no silêncio a voz de Craft murmurou:
—Très chic.
Em cima, no gabinete que o criado lhes indicou, Ega esperava, sentado no divã de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado como um noivo de província, de camélia ao peito e plastrão azul celeste. O Craft conhecia o; Ega apresentou a Carlos o sr. Dâmaso Salcede, e mandou servir vermute, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse requinte literário e satânico do absinto...
Fora um dia de Inverno suave e luminoso, as duas janelas estavam ainda abertas. Sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, sem uma aragem, numa paz elísia, com nuvenzinhas muito altas, paradas, tocadas de cor de rosa; as terras, os longes da outra banda já se iam afogando num vapor aveludado, do tom de violeta; a água jazia lisa e luzidia como uma bela chapa de aço novo; e aqui e além, pelo vasto ancoradouro, grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraçados ingleses, dormiam, com as mastreações imóveis, como tomados de preguiça, cedendo ao afago do clima doce...
—Vimos agora lá em baixo—disse Craft indo sentar se no divã—uma esplêndida mulher, com uma esplêndida cadelinha griffon, e servida por um esplêndido preto!
O sr. Dâmaso Salcede, que não despregava os olhos de Carlos, acudiu:
—Bem sei! Os Castro Gomes... Conheço os muito... Vim com eles de Bordéus... Uma gente muito chique que vive em Paris.
Carlos voltou se, reparou mais nele, perguntou lhe, afável e interessando se:
—O Sr. Salcede chegou agora de Bordéus?
Estas palavras pareceram deleitar Dâmaso como um favor celeste: ergueu se imediatamente, aproximou se do Maia, banhado num sorriso:
—Vim aqui há quinze dias, no "Orenoque”. Vim de Paris...Que eu em podendo é lá que me pilham! Esta gente conheci a a bordo. Mas estávamos todos no Hotel de Nantes. Gente muito chique: criado de quarto, governanta inglesa para a filhita, femme de chambre, mais de vinte malas... Chique a valer! Parece incrível, uns brasileiros...Que ela na voz não tem sotaque nenhum, fala como nós. Ele sim, ele muito sotaque... Mas elegante também, Vossa Excelência não lhe pareceu?
—Vermute?—perguntou lhe o criado, oferecendo a salva.
—Sim, uma gotinha para o apetite. Vossa Excelência não toma, sr. Maia? Pois eu, assim que posso, é direitinho para Paris! Aquilo é que é terra! Isto aqui é um chiqueiro... Eu, em não indo lá todos os anos, acredite Vossa Excelência, até começo a andar doente. Aquele boulevarzinho, hem!... Ai, eu gozo aquilo!... E sei gozar, sei gozar, que eu conheço aquilo a palmo... Tenho até um tio em Paris.
—E que tio!—exclamou Ega, aproximando se.—Íntimo de Gambetta, governa a França... O tio do Dâmaso governa a França, menino!
Dâmaso, escarlate, estoirava de gozo.
—Ah, lá isso influência tem. Íntimo do Gambetta, tratam se por tu. Até vivem quase juntos... E não é só com o Gambetta; é com o Mac Mahon, com o Rochefort, com o outro que me esquece ago-ra o nome, com todos os republicanos, enfim!... É tudo quanto ele queira. Vossa Excelência não o conhece? É um homem de barbas brancas... Era irmão de minha mãe, chama se Guimarães. Mas em Paris chamam lhe Mr. de Guimaran...

Eça de Queirós, Os Maias


I

1. Indique o assunto do texto e mostre que o seu desenvolvimento em partes lógicas corresponde à focalização sucessiva de espaços diferentes.

2. “O sr. Salcede chegou agora de Bordéus?’’ Esta pergunta de Carlos não lhe parece ter como fim o mudar o ramo à conversa? Em que medida é que este facto é abonatório da elegância de maneiras de Carlos?

3. Há aqui a introdução de duas personagens de Os Maias: Maria Eduarda e Dâmaso Salcede. Segundo a técnica do romance da época, o narrador apresenta as personagens traçando o seu retrato.
3. 1. Estes dois retratos (caracterizações directas) estão entre si numa relação de semelhança ou de contraste? Justifique a resposta.
3. 2. Mostre que a caracterização directa de Dâmaso é confirmada, ainda no texto, por muitos pormenores de caracterização indirecta.
3.3. Há também no texto a descrição sugestiva de uma paisagem. Segundo os cânones realistas, a paisagem condicionava as personagens (para os românticos era o inverso). A paisagem descrita surge como enquadramento condicionante de Maria Eduarda ou de Dâmaso? Justifique a resposta.

4. Com base no texto, ponha em evidência a linguagem e os recursos estilísticos mais marcantes de Eça.