23.5.07

A mais velha profissão do mundo


(mesmo mais velha que a outra)




O primeiro jornalista chamava-se Adão. Mas não tinha ninguém a quem dar notícias. Um dia, graças a Deus, chegou Eva e trazia, com a sua curiosidade e outras graças de mulher, a cura para o tédio em que Adão vivia no Paraíso da Terra.
Então, Adão começou a informar e a comunicar: "Aquilo além é uma montanha, na vertente onde bate o sol ao nascer há riachos e flores, árvores de frutos bons, peixes e aromas".
Foi esta a primeira notícia de que há notícia. Mais tarde, foram aparecendo novos homens e mulheres que davam, uns aos outros, notícias, comentários, reportagens e as primeiras análises políticas. Tendo aumentado a população, tornou-se inviável a troca directa de informações. Um dia, Sapino, bisneto de Eva e de bisavô incógnito, começou a riscar a vida na pedra. Havia uma esquina de lajedos que era ponto de passagem da Humanidade de então. E nas grandes faces de granito do basalto, Sapino talhava sinais sobre a caça que andava nas redondezas ou acerca das sarrafuscas que começavam entre os homens.
Foram os primeiros jornais de parede.
Mas o aumento de conhecimentos e consequente volume de informações a prestar tornaram impossível que Sapino se encarregasse de toda a tarefa. É dele, na sua forma original, a frase que se repercutiria no comboio dos séculos: "Eu não posso fazer o jornal sozinho!". Assim se arranjaram postos de trabalho para os primeiros escribas, ficando Sapino, ao que se supõe, como chefe de redacção. Dia após dia, chamava os redactores à pedra, o que ainda hoje ocorre.
Desconhecia-se, então, o cesto dos papéis, não por carência de cestos, mas por falta de papéis. Todavia há indícios de que os escribas, prezados colegas, nem sempre tiveram liberdade de expressão. Isto é: Sapino fazia já a sua pauta de censura. Não por vontade, mas porque o encostavam à parede. Com efeito, começaram a aparecer os primeiros poderosos pretendendo ver os escritos à sua feição. E o jornal de Sapino esteve para ser encerrado mil vidas antes da ANOP.
A imprensa escrita, pasme-se, estava então em grande crise, não só devido à elevada taxa de analfabetismo, como pela exiguidade do subsídio de pedra. O primeiro ensaio para uma distribuição falhou rotundamente: ninguém foi capaz de transportar pedra sobre pedra. Também o primeiro enviado especial não conseguiu levar a bom termo a sua tarefa: sucumbiu ao peso do bloco-notas.
Com embaraços tais, não surpreende que, ao longo de uma imensidade de anos, o jornalismo mais eficaz e actuante fosse praticado pela generalidade de homens e mulheres que, na sua troca de notícias, criaram a comunicação social.
E as próprias crianças quando, ao articularem as primeiras palavras, dirigiam ao pai perguntas ou protestos, estavam, sem saber, a inaugurar a secção de longo futuro: as Cartas ao Director.
Desde esses primeiros jornalistas não se inovou por aí além a essência do jornalismo. E quando se aponta outra como a mais velha das profissões esquece-se que, antes da primeira pecadora, já a informação circulava nas bocas do Mundo.
Muito antes do mau porte e do porte pago.

Mário Zambujal, in Notícias da Tarde, 05-10-1982


1. ANOP -Agência Noticiosa Portuguesa, hoje Agência Lusa.




I

1. O texto:
1.1. Identifica o assunto desta crónica.
1.2. O humor que atravessa todo o texto reside, por vezes, na forma como o cronista vai surpreendendo o leitor, criando expectativas "sérias" que são quebradas na continuidade das frases.
1.2.1. Transcreve duas situações que ilustrem esta constatação.
1.2.2. Comenta os diversos contextos em que aparece a palavra "pedra".
1.3. Ao longo da história que vai contando, o cronista assume, também, um tom crítico. 1.3.1. Sinaliza as passagens em que a crítica é mais evidente.

2. O título:
2.1. Comenta a expressividade do título.
2.2. Relaciona-o com os dois últimos parágrafos.