11.5.07

Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira

Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas, ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa de Alvim, nédia e branca, com o corpete negro reluzente de vidrilhos, tendo ao lado a sua terna inseparável, a Joaninha Vilar, cada vez mais cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante eram as Pedroso, as banqueiras, de cores claras, interessando-se pelas corridas, uma de programa na mão, a outra de pé e binóculo estudando a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal, desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. Numa bancada isolada, em silêncio, Vilaça com duas damas de preto.
(...)
- Repita lá isso! Repita lá isso!
E imediatamente aquela massa de gente oscilou, embateu contra o tabuado da tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de ordem e morra, chapéus pelo ar, baques surdos de murros.
Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da polícia; senhoras, com as saias apanhadas, fugiam através da pista, procurando espavoridamente as carruagens - e um sopro grosseiro de desordem reles passava sobre o hipódromo, desmanchando a linha postiça de civilização e a atitude forçada de decoro...
(...)
Então em volta de Carlos foi uma desconsolação, um longo murmúrio de lassidão. Todos perdiam; ele apanhava a poule, ganhava as apostas, empolgava tudo. Que sorte! Que chance! Um adido italiano, tesoureiro da poule, empalideceu ao separar-se do lenço cheio de prata: e de todos os lados mãozinhas calçadas de gris-perle, ou de castanho, atiravam-lhe com um ar amuado as apostas perdidas, chuva de placas que ele recolhia, rindo, no chapéu.
- Ah, monsieur - exclamou a vasta ministra da Baviera, furiosa - méfiez-vous... Vous connaissez le proverbe: heureux au jeu...
- Hélas! Madame! - disse Carlos, resignado, estendendo-lhe o chapéu.
E outra vez um dedo subtil tocou-lhe no braço. Era o secretário de Steinbroken, lento e silencioso, que lhe trazia o seu dinheiro e o dinheiro do seu chefe, a aposta do reino da Finlândia.


Eça de Queirós, Os Maias


Recordando que n' Os Maias se entrelaçam dois níveis diegéticos:

1.1. Indique em que nível diegético se situa este excerto. Justifique.
1.2. Localize este excerto na acção d'Os Maias.

2. Qual terá sido a intenção do autor ao introduzir o episódio transcrito na acção d'Os Maias?

3. Ao longo do romance diversos indícios anunciam a tragicidade da família Maia.
Que indício trágico está presente neste excerto?
Transcreva-o e explique-o.

4. Atente na seguintes frases:
a. "Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas, ambas correcta-mente vestidas de xadrezinho..."
b. "... a Joaninha Vilar, cada vez mais cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos."
c. "... - e um sopro grosseiro de desordem reles passava sobre o hipódromo... "
4.1. Indique os recursos estilísticos presentes em cada uma das frases acima transcritas e comente o seu valor expressivo.

5. Qual é uma das características da linguagem queiroseana que encontra abundantemente neste excerto? Justifique esta característica e transcreva alguns exemplos do texto.

6. Como são apresentadas neste excerto as personagens femininas?

7. "Eça de Queirós critica severamente a sociedade lusa do século XIX. Contudo, esta crítica social permanece bastante actual e poderia muito bem ser aplicada ao Portugal dos nossos dias."
Comente esta afirmação.