29.5.07

Cristalizações

(…)
E nesse rude mês, que não consente as flores,
Fundeiam, como esquadra em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
Atiram terra com as largas pás.

Eu julgo-me no Norte, ao frio — o grande agente! —
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto, que eu diria
Ter ante mim lagoas de brilhantes!

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exacto.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

(...)

Cesário Verde


1. maço - instrumento semelhante a um martelo.
2. japona - jaquetão; casaco.
3. esquadra - conjunto de navios de guerra.
4. enxárcia - conjunto dos cabos fixos que prendem os mastros e os mastaréus da gávea às mesas de guarnição situadas nas amuradas dos navios.
5. verga - pau preso ao mastro do navio, onde se amarra a vela.
6. valador - aquele que abre valas.


I


1. Indica a altura do ano em que se situa o cenário descrito pelo sujeito poético e transcreve passagens que justifiquem a tua resposta.

2. O sujeito poético refere, ao longo do poema, determinados tipos sociais agrupados em profissões.
2.1. Caracteriza os calceteiros.
2.2. A dureza do trabalho levado a cabo por estes homens reflecte-se no modo como o fazem.
2.2.1. Copia do poema um adjectivo e um advérbio que ilustrem esta afirmação.

3. Com a sua "visão de artista", o sujeito poético transfigura a realidade.
3.1. Justifica esta afirmação, apoiando a tua resposta em expressões textuais.

4. Procura no texto uma alusão saudosista ao campo, transcreve-a e explica-a.

5. O efeito impressionista da poesia de Cesário é conseguido através do recurso a processos estilísticos variados.
5.1. Prova que a descrição da cidade que o poeta faz, no seu deambular, apela a diferentes impressões dos sentidos.
5.2. Identifica no poema um exemplo de:
• sinestesia;
• assíndeto.


II

1. "E os rapagões, morosos, duros, baços, Cuja coluna nunca se endireita, Partem penedos." (vv. 21-23)
1.1. Divide e classifica as orações do excerto transcrito.
1.2. Faz a sua análise morfológica.


III

"A mim o que me rodeia é o que me preocupa."
1. Partindo da afirmação acima transcrita, atribuída a Cesário Verde, e evocando as leituras feitas nas aulas, elabora um texto expositivo-argumentativo (que tenha entre cento e trinta e cento e cinquenta palavras), onde esclareças essa atenção particular que o poeta dispensa à realidade circundante.




O descobridor da Islândia (II)


Um deles, sempre mais calado e solitário, preparou instrumentos e pôs-se a pescar. Não teve que esperar muito para que um peixe gordo e luzidio lhe viesse parar às mãos. Claro que o exemplo foi seguido e, nessa noite, regalaram-se com um verdadeiro banquete: peixe fresco nas brasas.
De roda da fogueira conversaram até altas horas da noite. O Sol não se punha mas a luz declinava, tornando-se pálida, derramando ouro pelas encostas.
- Esta ilha não tem dono - diziam.
- Fica para nós.
- Temos que lhe dar nome.
- Cá por mim escolhia Ilha do Quente e Frio.
- Ilha dos Mil Vulcões é mais bonito.
- Não gosto - atalhou Naddod. - E como quem manda sou eu, fica Terra de Neve, Snowland.
Habituados a obedecerem-lhe, todos concordaram. Todos menos um. Ingolf, o solitário, o silencioso, guardava para si os pensamentos mais íntimos. Sendo casmurro, decidiu logo que o nome seria outro, mas parecia-lhe inútil desafiar o chefe. Naddod era um verdadeiro pirata e não conseguia estar muito tempo no mesmo lugar. O mais certo era não tornar a pôr os pés naquela terra, onde não havia nada que se roubasse.
"Ele que diga os nomes que lhe apetecer", pensou. "A última palavra será minha."
Maravilhado com a paisagem, Ingolf tomara uma resolução: abandonar a pirataria. De regresso a casa, tencionava reunir um grupo de gente corajosa e conduzi-la para ali. 'Podiam instalar-se à vontade e viver bem. No seu espírito bailavam planos estupendos. Levaria carneiros e renas, porque havia pastos com fartura. E instrumentos para a pesca e para a caça, pois a ilha não era habitada mas tinha ursos brancos e raposas.
- Que ricas peles! Não nos vai faltar nada!
Satisfeito, abençoou os ventos que o tinham conduzido àquela terra linda e solitária como ele. Ingolf odiava ser pirata, não por falta de energia e resistência, não por medo, mas porque roubar e matar gente não lhe dava prazer nenhum.
De olhos fechados inspirou o ar frio, enquanto apertava entre os dedos um pedaço de gelo.
"Há-de ser minha e chamar-se Terra do Gelo, Iceland, Islândia."

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Histórias e Lendas da Europa


I


1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Naddod não iria mais àquela ilha porque:
a. não era um verdadeiro pirata
b. era ele quem mandava
c. não havia nada para roubar

1.2. Ingolf era:
a. solitário e medroso
b. decidido e determinado
c. apático e inseguro

2. Como se pode justificar que "peixe fresco nas brasas" fosse ou tenha sido um verdadeiro banquete?

3. Relê o segundo parágrafo.
3.1. Conversaram até altas horas da noite, embora o Sol não se tivesse posto. Explica a contradição desta afirmação.
3.2. Na expressão "(...) mas a luz declinava, (...) derramando ouro pelas encostas" está presente uma figura de estilo. Identifica-a e explica-a.

4. A segunda parte do texto é dedicada à personagem Ingolf.
4.1. Qual foi a estratégia que adoptou para se assenhorear da ilha?
4.2. De que forma a sua maneira de ser o ajudou nessa estratégia?
4.3. O que o levou a abandonar a pirataria?

II

Com base no excerto analisado e também com a ajuda de transcrições, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a oportunidade da citação do provérbio:

A ocasião faz o ladrão.




23.5.07

A mais velha profissão do mundo


(mesmo mais velha que a outra)




O primeiro jornalista chamava-se Adão. Mas não tinha ninguém a quem dar notícias. Um dia, graças a Deus, chegou Eva e trazia, com a sua curiosidade e outras graças de mulher, a cura para o tédio em que Adão vivia no Paraíso da Terra.
Então, Adão começou a informar e a comunicar: "Aquilo além é uma montanha, na vertente onde bate o sol ao nascer há riachos e flores, árvores de frutos bons, peixes e aromas".
Foi esta a primeira notícia de que há notícia. Mais tarde, foram aparecendo novos homens e mulheres que davam, uns aos outros, notícias, comentários, reportagens e as primeiras análises políticas. Tendo aumentado a população, tornou-se inviável a troca directa de informações. Um dia, Sapino, bisneto de Eva e de bisavô incógnito, começou a riscar a vida na pedra. Havia uma esquina de lajedos que era ponto de passagem da Humanidade de então. E nas grandes faces de granito do basalto, Sapino talhava sinais sobre a caça que andava nas redondezas ou acerca das sarrafuscas que começavam entre os homens.
Foram os primeiros jornais de parede.
Mas o aumento de conhecimentos e consequente volume de informações a prestar tornaram impossível que Sapino se encarregasse de toda a tarefa. É dele, na sua forma original, a frase que se repercutiria no comboio dos séculos: "Eu não posso fazer o jornal sozinho!". Assim se arranjaram postos de trabalho para os primeiros escribas, ficando Sapino, ao que se supõe, como chefe de redacção. Dia após dia, chamava os redactores à pedra, o que ainda hoje ocorre.
Desconhecia-se, então, o cesto dos papéis, não por carência de cestos, mas por falta de papéis. Todavia há indícios de que os escribas, prezados colegas, nem sempre tiveram liberdade de expressão. Isto é: Sapino fazia já a sua pauta de censura. Não por vontade, mas porque o encostavam à parede. Com efeito, começaram a aparecer os primeiros poderosos pretendendo ver os escritos à sua feição. E o jornal de Sapino esteve para ser encerrado mil vidas antes da ANOP.
A imprensa escrita, pasme-se, estava então em grande crise, não só devido à elevada taxa de analfabetismo, como pela exiguidade do subsídio de pedra. O primeiro ensaio para uma distribuição falhou rotundamente: ninguém foi capaz de transportar pedra sobre pedra. Também o primeiro enviado especial não conseguiu levar a bom termo a sua tarefa: sucumbiu ao peso do bloco-notas.
Com embaraços tais, não surpreende que, ao longo de uma imensidade de anos, o jornalismo mais eficaz e actuante fosse praticado pela generalidade de homens e mulheres que, na sua troca de notícias, criaram a comunicação social.
E as próprias crianças quando, ao articularem as primeiras palavras, dirigiam ao pai perguntas ou protestos, estavam, sem saber, a inaugurar a secção de longo futuro: as Cartas ao Director.
Desde esses primeiros jornalistas não se inovou por aí além a essência do jornalismo. E quando se aponta outra como a mais velha das profissões esquece-se que, antes da primeira pecadora, já a informação circulava nas bocas do Mundo.
Muito antes do mau porte e do porte pago.

Mário Zambujal, in Notícias da Tarde, 05-10-1982


1. ANOP -Agência Noticiosa Portuguesa, hoje Agência Lusa.




I

1. O texto:
1.1. Identifica o assunto desta crónica.
1.2. O humor que atravessa todo o texto reside, por vezes, na forma como o cronista vai surpreendendo o leitor, criando expectativas "sérias" que são quebradas na continuidade das frases.
1.2.1. Transcreve duas situações que ilustrem esta constatação.
1.2.2. Comenta os diversos contextos em que aparece a palavra "pedra".
1.3. Ao longo da história que vai contando, o cronista assume, também, um tom crítico. 1.3.1. Sinaliza as passagens em que a crítica é mais evidente.

2. O título:
2.1. Comenta a expressividade do título.
2.2. Relaciona-o com os dois últimos parágrafos.


21.5.07

Entravam então no perestilo do Hotel Central





Entravam então no perestilo do Hotel Central—e nesse momento um coupé da Companhia, chegando a largo trote do lado da Rua do Arsenal, veio estacar à porta.
Um esplêndido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo à portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra, passou lhe para os braços uma deliciosa cadelinha escocesa, de pêlos esguedelhados, finos como seda e cor de prata; depois, apeando se, indolente e poseur, ofereceu a mão a uma senhora alta, loira, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea. Craft e Carlos afastaram se, ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar. Trazia um casaco colante de veludo branco de Génova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz das suas botinas. O rapaz ao lado, esticado num fato de xadrezinho inglês, abria negligentemente um telegrama; o preto seguia com a cadelinha nos braços. E no silêncio a voz de Craft murmurou:
—Très chic.
Em cima, no gabinete que o criado lhes indicou, Ega esperava, sentado no divã de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado como um noivo de província, de camélia ao peito e plastrão azul celeste. O Craft conhecia o; Ega apresentou a Carlos o sr. Dâmaso Salcede, e mandou servir vermute, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse requinte literário e satânico do absinto...
Fora um dia de Inverno suave e luminoso, as duas janelas estavam ainda abertas. Sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, sem uma aragem, numa paz elísia, com nuvenzinhas muito altas, paradas, tocadas de cor de rosa; as terras, os longes da outra banda já se iam afogando num vapor aveludado, do tom de violeta; a água jazia lisa e luzidia como uma bela chapa de aço novo; e aqui e além, pelo vasto ancoradouro, grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraçados ingleses, dormiam, com as mastreações imóveis, como tomados de preguiça, cedendo ao afago do clima doce...
—Vimos agora lá em baixo—disse Craft indo sentar se no divã—uma esplêndida mulher, com uma esplêndida cadelinha griffon, e servida por um esplêndido preto!
O sr. Dâmaso Salcede, que não despregava os olhos de Carlos, acudiu:
—Bem sei! Os Castro Gomes... Conheço os muito... Vim com eles de Bordéus... Uma gente muito chique que vive em Paris.
Carlos voltou se, reparou mais nele, perguntou lhe, afável e interessando se:
—O Sr. Salcede chegou agora de Bordéus?
Estas palavras pareceram deleitar Dâmaso como um favor celeste: ergueu se imediatamente, aproximou se do Maia, banhado num sorriso:
—Vim aqui há quinze dias, no "Orenoque”. Vim de Paris...Que eu em podendo é lá que me pilham! Esta gente conheci a a bordo. Mas estávamos todos no Hotel de Nantes. Gente muito chique: criado de quarto, governanta inglesa para a filhita, femme de chambre, mais de vinte malas... Chique a valer! Parece incrível, uns brasileiros...Que ela na voz não tem sotaque nenhum, fala como nós. Ele sim, ele muito sotaque... Mas elegante também, Vossa Excelência não lhe pareceu?
—Vermute?—perguntou lhe o criado, oferecendo a salva.
—Sim, uma gotinha para o apetite. Vossa Excelência não toma, sr. Maia? Pois eu, assim que posso, é direitinho para Paris! Aquilo é que é terra! Isto aqui é um chiqueiro... Eu, em não indo lá todos os anos, acredite Vossa Excelência, até começo a andar doente. Aquele boulevarzinho, hem!... Ai, eu gozo aquilo!... E sei gozar, sei gozar, que eu conheço aquilo a palmo... Tenho até um tio em Paris.
—E que tio!—exclamou Ega, aproximando se.—Íntimo de Gambetta, governa a França... O tio do Dâmaso governa a França, menino!
Dâmaso, escarlate, estoirava de gozo.
—Ah, lá isso influência tem. Íntimo do Gambetta, tratam se por tu. Até vivem quase juntos... E não é só com o Gambetta; é com o Mac Mahon, com o Rochefort, com o outro que me esquece ago-ra o nome, com todos os republicanos, enfim!... É tudo quanto ele queira. Vossa Excelência não o conhece? É um homem de barbas brancas... Era irmão de minha mãe, chama se Guimarães. Mas em Paris chamam lhe Mr. de Guimaran...

Eça de Queirós, Os Maias


I

1. Indique o assunto do texto e mostre que o seu desenvolvimento em partes lógicas corresponde à focalização sucessiva de espaços diferentes.

2. “O sr. Salcede chegou agora de Bordéus?’’ Esta pergunta de Carlos não lhe parece ter como fim o mudar o ramo à conversa? Em que medida é que este facto é abonatório da elegância de maneiras de Carlos?

3. Há aqui a introdução de duas personagens de Os Maias: Maria Eduarda e Dâmaso Salcede. Segundo a técnica do romance da época, o narrador apresenta as personagens traçando o seu retrato.
3. 1. Estes dois retratos (caracterizações directas) estão entre si numa relação de semelhança ou de contraste? Justifique a resposta.
3. 2. Mostre que a caracterização directa de Dâmaso é confirmada, ainda no texto, por muitos pormenores de caracterização indirecta.
3.3. Há também no texto a descrição sugestiva de uma paisagem. Segundo os cânones realistas, a paisagem condicionava as personagens (para os românticos era o inverso). A paisagem descrita surge como enquadramento condicionante de Maria Eduarda ou de Dâmaso? Justifique a resposta.

4. Com base no texto, ponha em evidência a linguagem e os recursos estilísticos mais marcantes de Eça.

16.5.07

Sexta-Feira ou a Vida Selvagem

Sexta-feira colhia flores por entre os rochedos junto da antiga gruta quando viu um ponto branco no horizonte, para leste. Desceu imediatamente e correu para prevenir Robinson, que acabava de se barbear. Talvez Robinson se tivesse emocionado, mas não o deixou transparecer.
- Vamos ter visita - disse, simplesmente. - Mais uma razão para acabar de me arranjar.
A proa da embarcação roçou o fundo e ergueu-se antes de se imobilizar. Os homens saltaram para a espuma das ondas e puxaram a chalupa para a areia de maneira a colocá-la fora do alcance da maré - cheia. O homem da barba negra estendeu a mão a Robinson e apresentou-se:
- William Hunter, de Blackpool, comandante da escuna Whitebird.
- Em que dia estamos? - perguntou-lhe Robinson.
- Sábado, 22 de Dezembro de 1787.
O cérebro de Robinson trabalhou a toda a velocidade. O naufrágio do Virgínia dera-se a 30 de Setembro de 1759. Tinham-se portanto passado exactamente vinte e oito anos, dois meses e vinte e dois dias. Ele teria agora exactamente cinquenta anos. Cinquenta anos ! A idade de um velhote, em suma. E ele que graças à vida livre e feliz que levava em Speranza, graças principalmente a Sexta-feira, se sentia cada vez mais jovem! De qualquer modo, resolveu não revelar aos visitantes a verdadeira data do naufrágio, com medo que o tomassem por mentiroso.
- Fui atirado para este costa quando viajava a bordo do galeão Virgínia, comandado por Pieter Van Deyssel, de Flessingue. Sou o único sobrevivente da catástrofe.
- Nunca ouvi falar desse navio, em porto nenhum - observou Hunter - mas é verdade que a guerra com as Américas modificou todas as relações marítimas.

In Sexta-feira ou a Vida Selvagem, Michel Tournier


I

1. Resume o assunto deste excerto utilizando o teu próprio vocabulário.

2. Localiza o excerto na estrutura global da obra, justificando devidamente a tua resposta.

3. Localiza a acção do texto no tempo e no espaço.
3.1 Classifica-os de acordo com a terminologia aprendida na aula.
3.2 Faz o levantamento do texto de expressões reveladoras da passagem do tempo.

4. Por que motivo(s) Robinson não se mostra entusiasmado com a chegada do Whitebird ?

5. «Sexta -feira colhia flores por entre os rochedos (...) Robinson acabava de se barbear...»
Explicita a relação que se estabelecera entre Robinson e Sexta-feira após a explosão da gruta.
5.1 Refere as principais mudanças operadas em Robinson .

6. Explica o sentido da seguinte expressão, relacionando-a com a evolução de Robinson :
«E ele que graças à vida livre e feliz que levava (...) se sentia cada vez mais jovem! »
6.1 Classifica a personagem Robinson quanto ao papel que desempenha na acção e quanto à sua concepção. Justifica devidamente a tua resposta.

7. Justifica devidamente a escolha final das personagens Robinson e Sexta-feira.






Frei Luís de Sousa

A
« Já escrevi algures, e sinceramente vos repito aqui, que não tomei para mim os aplausos e favor com que o recebeu o público: não foi o meu drama que o povo aplaudiu, foi a ideia, o pensamento do drama nacional. »
Memória ao Conservatório Real

Relacione o sentido desta afirmação com o contexto cultural e literário da obra Garrettiana.


B
« Contento-me para a minha obra com o título modesto de drama: só peço que a não julguem pelas leis que regem, ou devem reger, essa composição de forma e índole nova; porque a minha, se na forma desmerece da categoria, pela índole há-de ficar pertencendo sempre ao antigo género trágico.

Memória ao Conservatório Real

Esclareça o sentido desta afirmação relacionando-a com a classificação tipológica da obra em questão.




12.5.07

Consílio dos Deuses (C.I, 23-26)


23
Em luzentes assentos, marchetados
De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
Os outros Deuses, todos assentados,
Como a Razão e a Ordem concertavam
(Precedem os antigos, mais honrados,
Mais abaixo os menores se assentavam);
Quando Júpiter alto, assi dizendo,
Cum tom de voz começa grave e horrendo:

24
«Eternos moradores do luzente,
Estelífero Pólo e claro Assento:
Se do grande valor da forte gente
De Luso não perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente
Como é dos Fados grandes certo intento
Que por ela se esqueçam os humanos
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.

25
«Já lhe foi (bem o vistes) concedido,
Cum poder tão singelo e tão pequeno,
Tomar ao Mouro forte e guarnecido
Toda a terra que rega o Tejo ameno.
Pois contra o Castelhano tão temido
Sempre alcançou favor do Céu sereno:
Assi que sempre, enfim, com fama e glória,
Teve os troféus pendentes da vitória.

26
«Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
Que co a gente de Rómulo alcançaram,
Quando com Viriato, na inimiga
Guerra Romana, tanto se afamaram.
Também deixo a memória que os obriga
A grande nome, quando alevantaram
Um por seu capitão, que, peregrino,
Fingiu na cerva espírito divino.

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto I



I

1. Situe o extracto que acabou de ler no plano narrativo em que está inserido e justifique a sua resposta.

2. Quem era Júpiter?

3. Por que razão se juntaram os Deuses no Olimpo?

4. Diga quem eram Luso, Viriato e Sertório.

5. Diga o que entende por moradores do luzente e Estelífero Pólo.

6. Explique a formação das palavras perlas, assi e alevantar.

7. Faça a análise formal (estrofe, métrica e rima) da estância 26.

8. Atente na seguinte frase: «Júpiter dirigiu-se aos outros deuses e disse que os Portugueses eram muito corajosos».

8.1. Divida e classifique as orações da frase.

8.2. Classifique morfologicamente as palavras da terceira oração.

8.3. Faça a análise sintáctica da primeira oração.


II

Numa composição cuidada, fale da importância do Maravilhoso Pagão de que Camões se serviu para enriquecer Os Lusíadas.

11.5.07

Pedaços de ternura



Saio de casa cedo. Entro na leitaria da esquina, peço a meia de leite e a empada. É Sábado, o dia veste de azul e oiro, gente passa de calção e toalha, na gula da praia que se despede. Mas ainda cheira a Verão: há que aproveitá-lo.
Enquanto trinco o salgado, os olhos prendem-me no letreiro em defronte: Tabacaria Nónó. É isso: sem que a gente tenha a consciência exacta do que se está a passar, acontece que Lisboa se foi enchendo de dísticos, como aquele, de nomes naquela linha. Leitarias Mimi, Tabacarias Lulu, Filó, Mariazinha, Snacks Ó Julinho, Olh 'a Fifi, O Manecas, Bares Géninha, Momocas. Um nunca acabar de espantos.
No primeiro instante, a gente olha, lê, e sorri para dentro. «Meu Deus! Que piroseira!» mas não será tanto. No fundo, a ânsia natural e quase comovente de quem sabe que não vai ficar na História e tem necessidade de, pelo menos enquanto vivo, sentir que todos, muitos, alguns, lhe repetem o nome(zinho). Ou a necessidade de se gritar ao vento aquele sentimento terno, e doce que nos aquece o coração, numa homenagem amorosa ao neto, à companheira de toda uma vida, ao mais-que-tudo, à filha que só agora começou a aprender a ler. «Estás a ver? O papá pôs o teu nome à entrada. Lê lá, para a mamã ouvir...» E o monstrozinho, gordo de sopa, a soletrar, com um esforço, uma concentração que toda a família, à volta, segue com unção: «ca...ca...cufé Do... dori.. Café Dórinha...»
No fundo, a reacção natural e instintiva dos anónimos à selva desumanizada e violenta que nos rodeia. Pedaços de ternura tremelicando, a medo, num céu de treva densa.

Guilherme de Melo, Diário de Noticias



I

1. O texto que acabaste de ler inicia-se por uma pequena descrição.
1.1. Sintetiza numa expressão o conteúdo dessa descrição.
1.2. Destaca elementos textuais que indiquem haver descrição de acções do autor inseridas no espaço e no tempo.
1.3. Explique como se torna evidente corresponderem estas acções do autor a uma situação habitual.

2. O autor, partindo de um motivo inspirador, apresenta a sua visão sobre determinado assunto.
2.1. Aponte o motivo inspirador deste texto.
2.2. Mostre como esse motivo parece estar generalizado.
2,3. Aponte as razões encontradas pelo autor para explicar o fenómeno observado.

3. Releia com atenção o último parágrafo, que contém a conclusão.
3.1. Explique o sentido de "...selva desumanizada e violenta..." "...pedaços de ternura ...num céu de treva densa"
3.2. Identifique a figura de estilo aí presente.

4. Classifique o texto transcrito, tendo em conta as tipologias de texto estudadas.



Pedaços de ternura



Saio de casa cedo. Entro na leitaria da esquina, peço a meia de leite e a empada. É sábado, o dia veste de azul e oiro, gente passa de calção e toalha, na gula da praia que se despede. Mas ainda cheira a Verão: há que aproveitá-lo.
Enquanto trinco o salgado, os olhos prendem-me no letreiro defronte: Tabacaria Nónó. É isso: sem que a gente tenha a consciência exacta do que se está a passar, acontece que Lisboa se foi enchendo de dísticos como aquele, de nomes naquela linha. Leitarias Mimi, Tabacarias Lulu, Filó, Mariazinha, Snacks Ó Julinho, Olh'a Fifi, o Manecas, Bares Géninha, Momocas. Um nunca acabar de espantos.
No primeiro instante, a gente olha, lê, e sorri para dentro. «Meu Deus! Que piroseira!». Mas não será tanto. No fundo, a ânsia natural e quase comovente de quem sabe que não vai ficar na História e tem necessidade de, pelo menos enquanto vivo, sentir que todos, muitos, alguns, lhe repetem o nome(zinho). Ou a necessidade de se gritar ao vento aquele sentimento terno, e doce que nos aquece o coração, numa homenagem amorosa ao neto, à companheira de toda uma vida, ao mais-que-tudo, à filha que só agora começou a aprender a ler. “Estás a ver? O papá pôs o teu nome à entrada. Lê lá, para a mamã ouvir…” E o monstrozinho, gordo de sopa, a soletrar, com um esforço, uma concentração que toda a família, à volta, segue com unção: “ Ca…ca…café Dó…dori…Café Dórinha…”
No fundo, a reacção natural e instintiva dos anónimos à selva desumanizada e violenta que os rodeia. Pedaços de ternura tremelicando, a medo, num céu de treva densa.

Guilherme de Melo, Diário de Notícias



I


1. Classifique, justificadamente, o texto jornalístico apresentado.

2. Escolha a alínea que completa de forma correcta a afirmação seguinte:
O motivo inspirador deste texto jornalístico é:
a) a praia.
b) o letreiro: tabacaria Nónó.
c) a leitaria da esquina.

2.1. Delimite, no texto, a generalização feita pelo autor a partir do motivo referido em dois.

3. Explique o emprego do articulador "Mas" (2ª frase, 3º parágrafo).

3.1. Aponte as razões encontradas pelo autor para explicar o fenómeno observado.

4. "( ...) selva desumanizada e violenta que os rodeia." (último parágrafo)
4.1. Identifique a figura de estilo presente na expressão acima transcrita.

4.2. Explique o sentido da expressão, tendo em conta o efeito obtido com a dupla adjectivação atribuída a selva.


II

1. Divida e classifique as orações das frases seguintes:

a)"Enquanto trinco o salgado, os olhos prendem-me no letreiro defronte.
b) Penso que a ternura me invadiu.
c) O Henrique, que é meu vizinho, leu o letreiro.

2. Ele grita ao vento aquele sentimento terno. O sentimento aquece-lhe o coração.
2.1. Transforme as duas frases simples numa complexa, procedendo às alterações necessárias.

3. Indique o hiperónimo do vocábulo "ternura".


III

" O mundo do espectáculo e os média são devoradores de pessoas. Criam ilusões, prometem fama, glória e proventos, mas acabam por concedê-los a um número irrisório de almas."
Vasco Prazeres

Num texto cuidado e bem estruturado, de cem a duzentas palavras, dê a sua opinião acerca do excerto transcrito, fundamentando-a, se possível, com exemplos.


Pedaços de ternura



SAIO DE CASA CEDO. Entro na leitaria da esquina, peço a meia de leite e a empada. É sábado, o dia veste de azul e oiro, gente passa de calção e toalha, na gula da praia que se despede. Mas ainda cheira a Verão: há que aproveitá-lo.
Enquanto trinco o salgado, os olhos prendem-me no letreiro defronte: Tabacaria Nónó. É isso: sem que a gente tenha consciência do que se está a passar, acontece que Lisboa se foi enchendo de dísticos como aquele, de nomes naquela linha. Leitarias Mimi. Tabacarias Lulu, Filó, Mariazinha. Snacks Ó Julinho, Olh'a Fifi, O Manecas. Bares Géninha, Momocas. Um nunca acabar de espantos.
No primeiro instante, a gente olha, lê e sorri para dentro. "Meu Deus! Que piroseira!". Mas não será tanto. No fundo, a ânsia natural e quase comovente de quem sabe que não vai ficar na História e tem necessidade de, pelo menos enquanto vivo, sentir que todos, muitos, alguns, lhe repetem o nome(zinho). Ou a necessidade de se gritar ao vento aquele sentimento terno, e doce que nos vai no coração, numa homenagem amorosa ao neto, à companheira de toda uma vida, ao mais-que-tudo, à filha que só agora aprendeu a ler. "Estás a ver? O papá pôs o teu nome à entrada. Lê lá , para a mamã ouvir..." E o monstrozinho, gordo de sopa, a soletrar, com um esforço, uma concentração que toda a família à volta segue com unção: "Ca... ca... café
Dó... dori... Café Dórinha... "
No fundo, a reacção natural e instintiva dos anónimos à selva desumanizada e violenta que os rodeia. Pedaços de ternura tremelicando, a medo, num céu de treva densa.

Guilherme de Melo, Diário de Notícias

I

1.Identifica o assunto do texto.

2.Refere a tua opinião acerca do título.

3." (...) Lisboa se foi enchendo de dísticos como aquele (...)"
3.1.Indica as razões que, segundo o autor do texto, levaram ao aparecimento de dísticos por toda a cidade.
3.2.Indica a tua própria opinião sobre este assunto.

4.Explica por palavras tuas o significado das expressões
a) "(...) o dia veste de azul e oiro (...)" (2ª linha);
b) "(...) na gula da praia que se despede. Mas ainda cheira a Verão (...)" (linhas 3 e 4).
4.1.Identifica o(s) recurso(s) expressivo(s) presente(s) nas expressões citadas.
4.2.Identifica também o(s) recurso(s) expressivo(s) presente(s) em "(...) todos, muitos, alguns, lhe repetem o nome(zinho)."
4.2.1.Analisa morfologicamente todas as palavras da expressão transcrita.
4.2.2.Indica a razão que terá levado o autor a utilizar os parêntesis em "nome(zinho)".

5.Substitui a expressão "naquela linha" (2º parágrafo) e as palavras "ânsia" e "unção"(3º parágrafo)por uma expressão e palavras sinónimas.

6.Identifica o(s) processo(s) de formação de palavras utilizados em
a)"mais-que-tudo";
b)"desumanizada".

7.Explica a utilização das reticências na última frase do 3º parágrafo ( " Ca... ca... café Dó... dori... Café Dórinha..." ).

8.Prova que este texto não é uma notícia, tendo em conta:
a) a pessoa gramatical predominante;
b) objectividade / subjectividade;
c) a(s) função (funções) da linguagem predominante(s);
d) o objectivo principal do texto.

9.Relê agora o último parágrafo do texto.
9.1.Transmite, por palavras tuas, o sentido deste parágrafo.
9.2.Tendo em conta a tua resposta à questão 8, bem como tudo o que aprendeste sobre a notícia no decurso das aulas, imagina o título e o lead de uma notícia na qual esteja espelhada a desumanização e a violência que nos rodeia.



Nota:

A frase contida no título da notícia por ti redigida deverá estar na forma passiva.



Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira

Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas, ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa de Alvim, nédia e branca, com o corpete negro reluzente de vidrilhos, tendo ao lado a sua terna inseparável, a Joaninha Vilar, cada vez mais cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante eram as Pedroso, as banqueiras, de cores claras, interessando-se pelas corridas, uma de programa na mão, a outra de pé e binóculo estudando a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal, desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. Numa bancada isolada, em silêncio, Vilaça com duas damas de preto.
(...)
- Repita lá isso! Repita lá isso!
E imediatamente aquela massa de gente oscilou, embateu contra o tabuado da tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de ordem e morra, chapéus pelo ar, baques surdos de murros.
Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da polícia; senhoras, com as saias apanhadas, fugiam através da pista, procurando espavoridamente as carruagens - e um sopro grosseiro de desordem reles passava sobre o hipódromo, desmanchando a linha postiça de civilização e a atitude forçada de decoro...
(...)
Então em volta de Carlos foi uma desconsolação, um longo murmúrio de lassidão. Todos perdiam; ele apanhava a poule, ganhava as apostas, empolgava tudo. Que sorte! Que chance! Um adido italiano, tesoureiro da poule, empalideceu ao separar-se do lenço cheio de prata: e de todos os lados mãozinhas calçadas de gris-perle, ou de castanho, atiravam-lhe com um ar amuado as apostas perdidas, chuva de placas que ele recolhia, rindo, no chapéu.
- Ah, monsieur - exclamou a vasta ministra da Baviera, furiosa - méfiez-vous... Vous connaissez le proverbe: heureux au jeu...
- Hélas! Madame! - disse Carlos, resignado, estendendo-lhe o chapéu.
E outra vez um dedo subtil tocou-lhe no braço. Era o secretário de Steinbroken, lento e silencioso, que lhe trazia o seu dinheiro e o dinheiro do seu chefe, a aposta do reino da Finlândia.


Eça de Queirós, Os Maias


Recordando que n' Os Maias se entrelaçam dois níveis diegéticos:

1.1. Indique em que nível diegético se situa este excerto. Justifique.
1.2. Localize este excerto na acção d'Os Maias.

2. Qual terá sido a intenção do autor ao introduzir o episódio transcrito na acção d'Os Maias?

3. Ao longo do romance diversos indícios anunciam a tragicidade da família Maia.
Que indício trágico está presente neste excerto?
Transcreva-o e explique-o.

4. Atente na seguintes frases:
a. "Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas, ambas correcta-mente vestidas de xadrezinho..."
b. "... a Joaninha Vilar, cada vez mais cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos."
c. "... - e um sopro grosseiro de desordem reles passava sobre o hipódromo... "
4.1. Indique os recursos estilísticos presentes em cada uma das frases acima transcritas e comente o seu valor expressivo.

5. Qual é uma das características da linguagem queiroseana que encontra abundantemente neste excerto? Justifique esta característica e transcreva alguns exemplos do texto.

6. Como são apresentadas neste excerto as personagens femininas?

7. "Eça de Queirós critica severamente a sociedade lusa do século XIX. Contudo, esta crítica social permanece bastante actual e poderia muito bem ser aplicada ao Portugal dos nossos dias."
Comente esta afirmação.




A frouxidão no amor é uma ofensa





A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão, fervor e extremo;
Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual és, vê que difrençal
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.

Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E, antes que um coração pouco amoroso,
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.

Talvez me enfadaria aspecto iroso;
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-me cativo, e não me faz ditoso.

Bocage


I

1. "A frouxidão no amor é uma ofensa"
1.1. Explicita devidamente o sentido deste verso.

2. Explica de que modo o dialogismo constitui um dos elementos estruturantes do poema.

3. "Vê qual sou, vê qual és, vê que dífrença”
3.1. Explica em que consiste essa diferença referida pelo sujeito poético.

4. Indica três recursos expressivos utilizados no poema e refere o seu contributo para a valorização da mensagem poética.

5. Comenta o valor expressivo da pontuação utilizada na segunda quadra.

6. Diz de que forma este poema se aproxima e/ou se afasta de outros poemas bocagianos estudados.


II

Numa composição expositivo-informativa, diz em que medida os poemas estudados de Bocage justificam a seguinte afirmação de Jacinto do Prado Coelho, a propósito do Pré-Romantismo:

"...a poesia enche-se de sombras melancólicas, derrama o gosto da Natureza solitária, propícia ao devaneio e à meditação, elogia a noite, prefiguração da Morte, compraz-se doentiamente no espectá-culo das ruínas e dos cemitérios."






A Estação de Rates




Instalaram-se de novo, num comboio bastante mais pequeno. E lá seguiram viagem. o João e a avó quase não tornaram a falar. A perspectiva do encontro enchia-lhes o peito, quase a ponto de sufocar. A Luísa observou, sem nada dizer, que ambos estavam afogueados e com os olhos muito brilhantes. No João, era normal. Mas a avó, com o seu carrapitinho branco e aquela expressão de felicidade que a iluminara, fê-la pensar que até uma velha pode ser bonita de vez em quando.
- Só falta uma estação - disse o Pedro, olhando pela janela. - É melhor prepararmo-nos.
De novo se colocaram perto da porta, prontos para saltar, assim que o comboio parasse.
Olhando pela janela o Pedro verificava que a professora que lhe dera aulas na 4ª classe tinha razão quando dizia: « O Minho é verde, muito verde! Verde e viçoso, como não há outro sítio em Portugal.» A professora era do Minho, claro. Mas tinha toda a razão.
O João debruçou-se todo para a frente e, com uma espécie de soluço mal engolido, chamou-lhes a atenção:
- Rates! A estação de Rates!

Uma Aventura Entre Douro e Minho,
Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada


1. Identifica as personagens que participam na acção.

2. Caracteriza globalmente o João e a avó.
Justifica com frases do texto.

3. Qual o motivo da ansiedade do João e da avó ?

4. Explica devidamente o sentido da seguinte expressão :
« A Luísa observou, sem nada dizer, que ambos estavam afogueados e com os olhos muito brilhantes. No João, era normal ... ».

5. Por que motivo se recorda João da sua professora da 4ª classe?
Diz o que faz com que ele lhe dê razão quando dizia « O Minho é verde ».

6. Também tu te recordas, certamente, da tua professora da 4ª classe.
Num pequeno texto relata um episódio que se tenha passado com ela.



6.5.07

Alegres campos, verdes arvoredos

Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas águas de cristal,
Que em vós os debuxais ao natural,
discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos,
compostos em concerto desigual,
sabei que, sem licença de meu mal,
já não podeis fazer meus olhos ledos.

E, pois me já não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas,
nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
regando-vos com lágrimas saudosas,
e nascerão saudades de meu bem.

Luís de Camões


I

1. Há nos primeiros versos deste soneto uma intenção descritiva.
1.1. Estabelece a relação entre o uso do adjectivo e essa intenção de descrever o mundo exterior.

2. Inserido nesse mundo exterior está o “eu” sujeito aos efeitos da mudança.
2.1. Especifica a mudança que se operou no estado sentimental do sujeito poético, e sua(s) causa(s).
2.2. Como se manifesta a fusão eu /natureza?
2.3. Qual desses dois elementos te parece valorizado no poema? Justifica a tua opinião.

3. Identifica o tema do soneto.





O descobridor da Islândia (I)


O pirata Naddod esfregou os olhos julgando sonhar. Há dias e dias que andava perdido naquele mar de gelo. O vento tinha rasgado a vela, a corrente puxava para norte, sempre para norte, onde sabia muito bem que não havia terra. Só muita perícia lhe permitira escapar ao embate violento com uma verdadeira montanha de gelo flutuante que se deslocava na bruma.
Os homens tremiam de frio, as peles estavam encharcadas e na expressão feroz de cada um bailava agora um receio inconfessável de terminarem assim, sem fama nem glória!
E agora tinham pela frente um jacto de vapor branco, um esguicho altíssimo, como se um monstro soprasse das profundezas do oceano. Baleia não era, pois baleias conheciam eles muito bem...
Alguns companheiros debruçaram-se na amurada, ansiosos. Que raio de coisa tão estranha! Pareceu-lhes também que o ar aquecia e que o próprio mar se tornava mais quente. O barco ia-se aproximando, aproximando...
O nevoeiro dissipou-se e alguém gritou:
- Terra à vista!
A voz, porém, soava perplexa, indecisa. Terra, naquele fim de mundo? Pois era mesmo verdade! Talvez por andarem embarcados há muito, pareceu-lhes a mais linda e apetecível que tinham visitado.
As costas muito recortadas formavam uma imensidade de golfos polvilhados de ilhotas; no solo montanhoso e coberto de neve palpitavam pequenas crateras de vulcão. De uma delas escorria lava, e que lindo era o efeito do fogo derretendo a neve. Formava sulcos, primeiro incandescentes, depois baços e negros por fim. Não faltava água. Rios violentos precipitavam-se lá do alto em cascatas ruidosas.
- Que maravilha! - disse Naddod. - Quero ser o primeiro do grupo a pôr o pé em terra firme.
Mal ele sabia que não era só o primeiro do grupo, mas sim o primeiro homem a desembarcar naquela ilha. De pirata passava a descobridor.
Os companheiros seguiram-no encantados. Juntos deram largas à sua alegria. Depois de matarem a sede numa fonte de águas tépidas, pareciam crianças arremessando uns aos outros grandes bolas de neve.


Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Histórias e Lendas da Europa


I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Quando Naddod viu a Islândia pela primeira vez:
a. andava à procura de terra
b. sentiu medo
c. pensou que era gelo

1.2. Quando o nevoeiro se dissipou:
a. viram um monstro
b. viram terra
c. descansaram

2. O texto agora apresentado foi retirado da mesma obra e fornece algumas informações sobre a Islândia. Lê-o e coloca as vírgulas que entenderes necessárias.


A Islândia é uma ilha espantosa. Coberta de neve por fora recheada de vulcões por dentro forma um conjunto muito invulgar de fogo e gelo.
Tanto quanto se sabe permaneceu deserta e solitária no Oceano Glacial Árctico até que um pirata norueguês ali foi desembarcar no ano 861. Chamava-se Naddod e juntamente com os companheiros de viagem terá esfregado os olhos julgando sonhar quando viu pela frente aquela terra estranha onde o gelo fumegava... Isto porque junto da costa havia esguichos colossais de vapor de água como se um feiticeiro ou um dragão soprasse das profundezas!
Eram geisers.



3. Explica o sentido que atribuis ao segundo parágrafo.

4. Como se poderá explicar a alegria dos homens de Naddod ao desembarcarem na Islândia?

5. Que transformação provocou esta descoberta na vida de Naddod?

6. Que aspectos geográficos sobre a Islândia são referidos no texto?

II

Com base no texto, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a frase:
A sensação da descoberta vivida pelos navegadores!


4.5.07

Levad', amigo, que dormides as manhãas frias



Levad', amigo, que dormides as manhãas frias;
todalas aves do mundo d' amor dizian:
leda m' and' eu.

Levad', amigo, que dormide' -las frias manhãas;
todalas aves do mundo d' amor cantavan:
leda m' and' eu.

Toda-las aves do mundo d' amor diziam;
do meu amor e do voss' en ment' avian:
leda m' and' eu.

Toda-las aves do mundo d' amor cantavan;
do meu amor e do voss' i enmentavan:
leda m' and' eu.

Do meu amor e do voss' en ment'avian;
vós lhi tolhestes os ramos en que siian:
leda m' and' eu.

Do meu amor e do voss' i enmentavam;
vos lhi tolhestes os ramos en que pousavan
leda m' and' eu.

Vós lhi tolhestes os ramos en que siian
e lhis secastes as fontes en que bevian:
leda m' and' eu.

Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan
e lhis secastes as fontes u se banhavan:
leda m' and' eu.


Nuno Fernandes Torneol, CV 242, CBN 604)


I

1. Divida esta cantiga em partes e indique o assunto de cada uma.

2. Identifique o sujeito poético e faça a sua caracterização.

3. Comente o papel desempenhado pelas «aves» nesta cantiga.

4. Atendendo à rima, à disposição estrófica e dos versos, caracterize o poema a nível formal.

5. Refira a valor documental das cantigas de amigo.


II

Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de Hernâni Cidade:

«As cantigas de amigo, essas, dir-se-iam florescidas ao ar livre, frequentemente no ambiente duma natureza amiga – amiga ao ponto de intervir, como intermediária ou confidente, no drama lírico.»