17.4.07

Um dia

Starfish Art Print by Peter Cade


Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar



I

Depois de uma leitura atenta do poema, elabore um comentário global, centrando-se nos seguintes aspectos:
- a oposição Vida/Morte como expressão da essência e da condição humana;
- os animais e a natureza como símbolos da liberdade;
- o mar como meio de purificação e símbolo da dinâmica da vida;
- a sugestão de comprometimento com a realidade;
- a estrutura lógica do discurso.


II

Tendo em conta a poesia lírica que analisou, ao longo do ano, e apoiando-se em exemplos das leituras feitas, comente a seguinte afirmação:

A vida humana limitada, transitória e frágil provoca, frequentemente, angústia, desespero, um sentimento de injustiça, mas também o de esperança. Os poetas, ao longo dos tempos, são os que melhor souberam exprimir e reflectir sobre esta situação da condição do ser humano.



III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e cinquenta e seis palavras, num texto de cento e dezoito a cento e trinta e oito palavras.


Nestes muitos milénios dos meios como inteligência auxiliar, a única opção que nós, humanos, tivemos para a criação de outras inteligências como a nossa - não de ampliadores da inteligência, mas inteligências em si mesmas - foi o agradável expediente de criar outros seres humanos. O nosso ADN, ao que parece, só nos deixou duas opções: criar assombrosas tecnologias que aumentassem muito a nossa inteligência, mas que não podiam pensar por si próprias, ou criar assombrosas crianças que crescessem, na essência, com os mesmos conjuntos de capacidades cognitivas que os pais. O desenvolvimento deliberado de inteligência nos nossos ajudantes animais, como os cães, talvez seja uma excepção parcial. Mas é verdadeiramente uma excepção limitada, na medida em que mesmo os cães foram educados não para exercitar juízos e pensamento independentes, mas para cumprir ordens mais inteligentemente - isto é, para serem melhores ajudantes.
A ficção científica e até a lenda, antes dela, muitas vezes à frente da curva tecnológica na indicação do que os humanos mais querem da vida e da tecnologia, preencheram o vazio - muitas vezes com terríveis avisos antes do século XX e ao longo dele. [...] Em todos as histórias, que quanto ao resto não são muito parecidas, mantinha-se significativamente a destruição de nós, os criadores humanos que se arriscaram a comportar-se como deuses.
Isaac Asimov [...] também foi vanguardista e ainda mais revolucionário na maneira como tratou os robôs. A partir de 1940, publicou uma série de curtas histórias - culminando em sete das novelas da série de onze livros - em que os robôs eram programados para funcionarem tanto em defesa da humanidade como, em muitos casos, com genuíno discernimento independente. O que torna interessante a leitura das narrativas de Asimov é o facto de elas nem sempre terem êxito na primeira fase do projecto, mas sim na segunda; mas os robôs também tiveram êxito, com frequência, na primeira, e de formas tão originais que fazem das histórias de Asimov não só explorações da «IA» definida como inteligência autónoma e independente, mas também como inteligência que quebrou o modelo do Golem de as nossas próprias criações se virarem contra nós.

Paul Levinson, A Arma Suave, "A Máquina do Mundo"