17.4.07

O primeiro livro de cada uma das minhas vidas


Perguntaram-me uma vez qual fora o primeiro livro de minha vida. Prefiro falar do primeiro livro de cada uma de minhas vidas. Busco na memória e tenho a sensação quase física nas mãos ao segurar aquela preciosidade: um livro fininho que contava a história do patinho feio e da lâmpada de Aladim. Eu lia e relia as duas histórias, criança não tem disso de só ler uma vê?: criança quase aprende de cor e, mesmo quase sabendo de cor, relê com muito da excitação da primeira vez. A história do patinho que era feio no meio dos outros bonitos, mas quando cresceu revelou o mistério: ele não era pato e sim um belo cisne. Essa história me fez meditar muito, e identifiquei-me com o sofrimento do patinho feio — quem sabe se eu era um cisne?
Quanto a Aladim, soltava minha imaginação para as lonjuras do impossível a que eu era cré-dula: o impossível naquela época estava ao meu alcance. A ideia do génio que dizia: pede de mim o que quiseres, sou teu servo - isso me fazia cair em devaneio. Quieta no meu canto, eu pensava se algum dia uni génio me diria: «Pede de mini o que quiseres.» Mas desde então revelava-se que sou daqueles que têm que usar os próprios recursos para terem o que querem, quando conseguem.
Tive várias vidas. Em outra de minhas vidas, o meu livro sagrado foi emprestado porque era muito caro: Reinações de Narízinho. Já contei o sacrifício de humilhações e perseverantes pelo qual passei, pois, já pronta para ler Monteiro Lobato, o livro grosso pertencia a urna menina cujo pai tinha uma livraria. A menina gorda e muito sardenta se vingara tornando--se sádica e, ao descobrir o que valeria para mim ler aquele livro, fez uni jogo de amanhã venha em casa que eu empresto». Quando eu ia, com o coração literalmente batendo de alegria, ela me dizia: «Hoje não posso emprestar, venha amanhã.» Depois de cerca de um mês de venha amanhã, o que eu, embora altiva que era, recebia com humildade para que a menina não me cortasse de vez a esperança, a mãe daquele primeiro monstrinho de minha vida notou o que se passava e, um pouco horrorizada com a própria filha, deu-lhe ordens para que naquele mesmo momento me fosse emprestado o livro. Não o li de uma vez: li aos poucos, algumas páginas de cada vez para não gastar. Acho que foi o livro que me deu mais alegria naquela vida.
Em outra vida que tive, eu era sócia de uma biblioteca popular de aluguel. Sem guia escolhia os livros pelo título. E eis que escolhi um dia um livro chamado O Lobo da Estepe de Hernan Hesse. O título me agradou, pensei tratar-se de um livro de aventuras tipo Jack London. O livro, que li cada vez mais deslumbrada, era de aventura, sim, mas outras aventuras. E eu, que já escrevia pequenos contos, dos 13 aos 14 anos, fui germinada por Herman Hesse e comecei a escrever um longo conto, imitando-o: a viagem interior me fascinava. Eu havia entrado em contato com a grande literatura.
Em outra vida que tive, aos 15 anos, com o primeiro dinheiro ganho por trabalho meu, entrei altiva, porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar. Folheei quase todos os livros dos balcões, lia algumas linhas e passava para outro. E de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! E, contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. Só depois vim a saber que a autora não era anónima, sendo, ao contrário, considerada um dos melhores escritores de sua época: Kathenne Mansfield.

Clarice Lispector, in Aprendendo a Viver - Crónica Brasileira


I

1. A cronista apresenta-nos o seu percurso de vida, enquanto leitora, até aos quinze anos.
1.1. Explique a expressão "Prefiro falar do primeiro livro de cada uma de minhas vidas», tendo em atenção a leitura global do texto.
1.2. Indique os livros que mais a marcaram na infância.

2. No terceiro parágrafo, a autora da crónica narra um episódio sobre um livro que lhe foi emprestado.
2.1. Explique os obstáculos enfrentados pela cronista para conseguir fruir o prazer da leitura de Reinações de Narizinho.
2.2. Caracterize a dona desse livro.
2.3. Exponha a sua opinião sobre a atitude da mãe da «menina».

3. Sinalize, no texto, marcas linguísticas que denotam características da variante brasileira do português.