19.4.07

Arrancou como um doido


Espavorido, doído no corpo e na alma, saltou para a moto e arrancou como um doido ou um furacão disposto a cortar a noite ao meio, de um só fôlego, com a moto a descarregar a raiva que ele sentia. A raiva de ter gasto tempo e latim com uma miúda que não merecia, que não O merecia! Que raiva!
Acordou sentindo uma moleza estranha a invadir-lhe todo o corpo. A cama não era a sua. Nem o quarto... Moveu a cabeça lentamente para a direita e percebeu que estava num hospital, provavelmente numa unidade de cuidados intensivos. Não sentia nada. Talvez já nem estivesse vivo, pensou. Que teria acontecido? Fez um esforço de memória, mas nada recordava.
Quando viu entrar uma enfermeira, pôde, de facto, confirmar que não estava nos anjinhos. Estava, isso sim, no purgatório (na melhor das hipóteses, pensou).
- Vais dizer-me o número de telefone de tua casa. Devagarinho, sim? A voz da enfermeira soou-lhe como se viesse de muito longe.
- Que foi que me aconteceu? - inquiriu a custo.
- Não te canses. Tiveste um acidente, mas agora estás entregue. O número...
Ele lá ditou o número de telefone, realmente muito devagar, começando a compreender que não sentia as pernas. O pânico estava a invadi-lo, mas preferiu não fazer perguntas. A enfermeira saiu e foi nesse momento que ele se apercebeu da presença de outro doente, na cama ao lado. Era um homem de idade avançada e parecia estar a morrer. O Ricardo quis levantar-se, fugir dali para bem longe, mas o corpo não lhe obedeceu. Chamou então a enfermeira, que apareceu imediatamente:
- O médico já cá veio ver-te. Está descansado. O doutor Rodrigues deve estar a chegar e ele é que dirá o que vamos fazer. Daqui a pouco já vais ver os teus pais, não te preocupes. Agora tenta dormir. Shhh...
Dormir?! Como?! E daí... Sentia-se exausto, na verdade. Completamente desprovido de forças. Não se reconhecia. Lentamente, fechou os olhos tentando abstrair-se dos gemidos do velhote. Talvez tudo aquilo fosse um pesadelo, pensou. Muito real, era certo, mas demasiado macabro para que não passasse disso mesmo: um pesadelo.
Tentou novamente mexer as pernas, mas em vão. Era com certeza um pesadelo.

Maria Teresa Maia Gonzalez, Ricardo, o Radical


I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. O primeiro parágrafo permite-nos caracterizar a personagem como:
a. arrogante e exaltada
b. convencida e impulsiva
c. atarefada e importante

1.2. A expressão "ter gasto tempo e latim" permite-nos saber que a personagem:
a. tentou convencer pela palavra
b. foi paciente
c. falou muito tempo em latim

2. Relê o primeiro parágrafo.
2.1. Transcreve duas palavras homógrafas.
2.2. Na expressão "que não O merecia!", identifica a classe morfológica da palavra "O" e a função sintáctica que exerce.
2.3. Explica o emprego da maiúscula na expressão transcrita na questão anterior

3. Elabora uma frase que estabeleça uma relação de sentido entre o primeiro e o segundo parágrafos.

4. Qual o motivo do pânico de Ricardo? (oitavo parágrafo)

5. O que dava à situação um aspecto macabro? (décimo parágrafo)

6. Reescreve os dois últimos períodos do oitavo parágrafo, iniciando-os por:
Se o Ricardo quisesse…

II

Com base no texto, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a frase final.

Era com certeza um pesadelo.