22.3.07

Os amantes sem dinheiro




Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Os Amantes sem Dinheiro (1950)



Analise e interprete poema, considerando os aspectos seguintes:
• a dimensão excepcional dos amantes, detentores e portadores de bens alheios à esfera material;
• a identificação com o «anjo de pedra»;
• a localização do amor num espaço simultaneamente na e para além da realidade;
• a nota quase sociológica introduzida pelo título e confirmada nos primeiros versos da 3ª estrofe;
• o sentido da adversativa «Mas»;
• o carácter transfigurador e fertilizador do amor;
• os recursos estilísticos aos níveis morfo-sintáctico e semântico.