11.3.07

O sapateiro pobre




Havia um sapateiro que trabalhava à porta de casa e todo o santíssimo dia cantava. Tinha muitos filhos, que andavam rotinhos pela rua, pela muita pobreza; e à noite, enquanto a mulher fazia a ceia , o homem puxava da viola e tocava os seus batuques muito contente.
Ora, defronte do sapateiro morava um ricaço, que reparou naquele viver e teve pelo sapateiro tal compaixão que lhe mandou dar um saco de dinheiro, porque o queria fazer feliz.
O sapateiro lá ficou admirado. Pegou no dinheiro e à noite fechou-se com a mulher para o contarem. Naquela noite, o pobre já não tocou viola. As crianças, como andavam a brincar pela casa, faziam barulho e levaram-no a errar na conta, e ele teve de lhes bater. Ouviu-se uma choradeira, como nunca tinham feito quando estavam com mais fome. Dizia a mulher:
- E agora, que havemos de fazer a tanto dinheiro?
- Enterra-se!
- Perdemos-lhe o tino. É melhor metê-lo na arca.
- Mas podem roubá-lo! O melhor é pô-lo a render.
- Ora, isso é ser onzeneiro!
- Então levantam-se as casas e fazem-se de sobrado e depois arranjo a oficina toda pintadinha.
- Isso não tem nada com a obra! O melhor era comprarmos uns campinhos. Eu sou filha de lavrador e puxa-me o corpo para o campo.
- Nessa não caio eu.
- Pois o que me faz conta é ter terra. Tudo o mais é vento.
As coisas foram-se azedando, palavra puxa palavra, o homem zanga-se, atiça duas solhas na mulher, berreiro de uma banda, berreiro da outra, naquela noite não pregaram olho.
O vizinho ricaço reparava em tudo e não sabia explicar aquela mudança. Por fim, o sapateiro disse à mulher:
- Sabes que mais? O dinheiro tirou-nos a nossa antiga alegria! O melhor era ir levá-lo outra vez ao vizinho dali defronte, e que nos deixe cá com aquela pobreza que nos fazia amigos um do outro!
A mulher abraçou aquilo com ambas as mãos, e o sapateiro, com vontade de recuperar a sua alegria e a da mulher e dos filhos, foi entregar o dinheiro e voltou para a sua tripeça a cantar e a trabalhar como de costume.

Vale Moutinho, Contos Tradicionais Portugueses


I

1. Atenta no narrador.
1.1. Classifica-o quanto à presença.
Justifica convenientemente a tua resposta com expressões retiradas do texto.

2. Identifica as personagens que surgem neste conto.

3. Qual a situação inicial deste conto tradicional?

4. Que facto veio alterá-la?

5. Enumera os vários destinos que o sapateiro queria dar ao dinheiro.

6. A mulher do sapateiro discordava do seu marido.
6.1. Que destino queria ela dar ao dinheiro?

7. A partir do momento em que ficou rico, o sapateiro modificou o seu comportamento.
7.1. Refere essas mudanças.

8. Qual é a moral deste conto?


II

1. Retira do texto todas as frases que se encontram no discurso directo.

2. Reescreve as frases do exercício anterior, apenas as do primeiro diálogo entre o sapateiro e a sua mulher (só até «puxa-me o corpo para o campo»), no discurso indirecto.

3. Lê atentamente este excerto adaptado do livro Laços de Família de Clarice Lispector.

O troco era bom. Mas dera daqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Perguntou para consigo própria: - Como pude eu dar à luz estes seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Dizia para consigo: - Uns comunistas é o que eles são; uns comunistas! Olhou-os com a sua cólera de velha. Pareciam ratos (…) a sua família.

3.1. Reescreve-o no discurso indirecto livre.