9.3.07

Manhã na serra



Manhã na serra... Ainda o Cabril está escuro. Levanta-se o Sol pela hora velha, mas já i» operários passaram para as fábricas da vila. Vão sempre apressados, homens e mulheres. A gente que fica também se move. Tem-se a impressão que durante o tempo quente, com os trabalhos sucessivos das regas e colheitas, ninguém aqui dorme.
A manhã vai abrindo vagarosamente. Da cumeada, lá bem ao alto de uns cabeços felpudos mais próximos, c de outros escalvados, pesados e maciços, mais remotos, rompe o sol empoeirado. O Cabril, escuro, ainda não tem delineamento. Porém, neste Outubro estiado nem aí manhãs são frias, nem as névoas demoradas, nem o vento sopra, e não chove.
Até a lua, no crescente, é luminosa! Tão formoso tempo desgosta o povo.
A chuva mostra-se (anda o céu enevoado) de vez em quando, mas logo logo...
Tudo vai aquecendo mansamente e o fumo sobe direito. É tão leve a inclinação que casual-mente toma que só olhando-o pertinazmente se vem a descobrir o lado do vento.
Os milhos mais serôdios ainda não foram ceifados e também não bolem. Há uma calma per-feita, e lembrarmo-nos nós de que os vendavais encanados por todas estas vertentes tortuosas chegam a derrubar as mais grossas canas de milho! (...)
Ouço a chocalhada de mais um rebanho. Desde muito cedo que eles passam. Os pastores levam-nos lentamente, paulada a este chibo, paulada àquela ovelha, paulada em vão, descansada, para que os animais aproveitem bem toda a verdura mais ou menos seca das bordas antes de assentarem no chão que vão rapar e estrumar durante um dia ou mais. (...) Uma cantoria arrastada e graciosa, bem soante, vem da esquerda. Têm bonita voz as serranas da Estrela! É mais uma descasca do milho. E à minha direita, para meu desgosto (um desgosto mental, supérfluo), na mata destroçada da rica Artensa luzem os pinheiros finos, tombados e descas-cados, vendidos à companhia dos telefones, salvo erro, para postes. Na aldeia, de muitos fogos, não há nem se espera tão cedo telégrafo ou telefone! Esta rica Artensa do povo de lá tem o marido na América. Com o dinheiro americano e o serrano vão ambos fazendo um casão. Bastou-lhes terem um filho. Trataram logo dos interesses. Ele do lado d'além (to mar e ela do lado aquém, governam-se satisfatoriamente.
Mas diz o Jaleca por malandrice, e ainda outros mais, repetindo o que ouvem aos parentes americanos de torna-viagem;
O! Ô! E o'a vergonha dos portugueses. Poipar, sim, mas daquele unido? Ele t’chegou a andar co’os sapatos sem solas! E pró quê? Também lês há-de soar a hora, com’os oitros...
Não tendo mais que apontar de momento pelo menos, porque tudo isto sendo variado é constante, repetido, levanto a pena fico-me a olhar para o espesso e melindroso Cabril, d'aquém névoa, d'além luz.

Irene Lisboa, Crónicas da Serra


I

1. «Manhã na serra... Ainda o Cabril está escuro.»
1.1 Situa a cronista no espaço.
1.2 Que traço é evidenciado relativamente às pessoas referidas no 1.° parágrafo?
2. Descreve a paisagem natural observada pela escritora.
3. Clarifica a identificação do sujeito presente na expressão «e lembrarmo-nos nós»
4. O sentido da audição está presente para captar as vivências próprias de um espaço rural serrano.
4.1 Transcreve expressões textuais que comprovem a afirmação anterior,
4.2 A que correspondem os diferentes sons?
5. «E à minha direita, para meu desgosto»
5.1 O que causa a «mágoa» do locutor?
5.2 A «rica Artensa» e seu marido emigrado na América são criticados. Porquê?
6. No último parágrafo, a escritora assume-se como cronista-repórter. Estás de acordo com esta afirmação? Justifica.
6.1 Explicita o sentido da expressão «Cabril, d'aquém névoa, d'além luz.», tendo em conta os vocábulos destacados.