7.3.07

A uma ausência




Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me sustenta,
O mal, que me consome, me sustenta
O bem, que me entretém, me dá cuidado:

Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me atormentado:

Choro no mesmo ponto, em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;

Mas se de confiado desconfio,
É porque entre receios da mudança
Ando perdido em mim, como em deserto.


António Barbosa Bacelar, in Fénix Renascida


I

1. A realidade que o autor exprime é exterior a ele mesmo, objectiva ou, pelo contrário, é interior? Como justificas?

2. O ponto de vista acerca dessa realidade mostra um sujeito seguro de si, confiante, ou desorientado, confuso? Selecciona dois dados textuais para ilustrar a tua resposta.

3. Faz o levantamento de alguns verbos e de uma figura de estilo que melhor exprimem o estado do sujeito referido anteriormente.

4. Relê a parte final do soneto e transcreve o verso que melhor sintetiza esse estado do sujeito.
4.1. Explica por palavras tuas o sentido desse verbo.

5. O verbo "andar" aparece no 5.° e no 14.° versos. Ele é usado com o mesmo significado? Justifica.
6. Repara na forma verbal "ver-me" (v. 8).
A posposição do pronome pessoal me deve-se a razões métricas ou gramaticais? Porquê?


II

A partir deste soneto, e de outros textos relacionados com o Barroco, elabora, de forma cuidada, um comentário sobre os factores que originaram a consciência de crise própria do Homem deste período.