31.3.07

Avé-Marias



Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás estravassado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, no mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes. (...)


Cesário Verde



I

1. Deambulando pela cidade, o sujeito poético traça um quadro dinâmico da realidade que o circunda.
1.1. Caracteriza o ambiente em que o sujeito poético deambula.
1.2. Identifica, a partir de expressões do texto, as sensações através das quais ele percepciona a realidade.
1.3. Descreve os efeitos dos estímulos exteriores sobre o sujeito poético.

2. Embora resultando da análise objectiva do real, o quadro descrito apresenta traços vincados da subjectividade do poeta.
2.1. Identifica e explica o sentimento implícito na expressão "Felizes!" (v. 10).
2.2. Justifica a evocação histórica da sexta estrofe.
2.3. Comenta a expressividade das imagens com que são descritos os três grandes grupos de trabalhadores presentes no poema - "os carpinteiros", "os calafates" e "as varinas".


II

1. Os dois primeiros versos da nona estrofe são constituídos por três orações coordenadas assin-déticas.
1.1. Explicita a conjunção coordenativa que poderia unir todas as orações.
1.2. Reescreve as duas orações do segundo verso, estabelecendo entre elas uma relação de tempo.
1.3. Faz a análise sintáctica da seguinte oração: "Reluz, viscoso, o rio (...)" (v. 34)


III

1. Resume o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e sessenta e quatro palavras, num texto de cento e cinco a cento e trinta e cinco palavras.

"Se escritor existe, na história da literatura portuguesa, cuja biografia literária é breve e de certo modo apagada, esse escritor é sem dúvida Cesário Verde. (...) Essa impressão de apagamento torna-se mais insistente em contraste com a notoriedade que o poeta atingiu depois de morrer, em função do relevante papel que se lhe reconhece na evolução da poesia portuguesa da segunda metade do século XIX. (...)
Ignorado ou incompreendido pelo meio literário português - note-se que o Parnaso Português Moderno1 (1877), de Teófilo Braga, não o inclui nem se lhe refere -, Cesário consagra-se à vida comercial e agrícola, que cada vez mais o absorve. O que não o impede, no entanto, de prosseguir a sua criação poética, sob o signo de um certo cepticismo, confessado em cartas a vários amigos (Macedo Papança, Silva Pinto, etc.), e também de uma espécie de tédio existencial, acentuado quando se agrava a tuberculose de que por fim morreria, em W de Julho de 1886.
O relativo isolamento em que decorre a breve vida literária de Cesário Verde pode explicar-se de várias formas, a começar pelo que de inovador existia na sua poesia, antecipando-se, nos anos 70, aos movimentos poéticos que o fim-de-século consagraria. Por outro lado, Cesário não se articula directamente com aquele que foi, no seu tempo, o grupo dominante de intelectuais e escritores: a chamada Geração de 70, de que Cesário se separava antes de tudo por um pequeno desfasamento etário (contava apenas 16 anos quando tiveram lugar as Conferências do Casino). A isto vem juntar-se a sua cada vez mais intensa actividade comercial, aliada à falta de uma formação universitária que lhe facultasse o acesso aos círculos intelectuais dominantes no seu tempo. (...)
O reconhecimento póstumo da importância de Cesário Verde na literatura portuguesa do século XIX deve muito ao empenhamento de Silva Pinto: tendo publicado em 1887 o volume a que deu o título O Livro de Cesário Verde, Silva Pinto legou à posteridade uma obra poética ordenada (cer-tamente de acordo com o seu critério pessoal) em duas secções - "Crise romanesca" e "Naturais"- e com variantes em relação ao primeiro aparecimento na imprensa; a esses textos vieram juntar-se, em edição de Joel Serrão, outros poemas dispersos, entretanto recolhidos.

Carlos Reis, "Cesário Verde: Realismo e Criação Poética",
in História da Literatura Portuguesa, vol. 5, Ed. Alfa, 2001



1. Parnaso Português Moderno - antologia de poesia que reúne autores do século XIX.