10.2.07

Tanto de meu estado me acho incerto



Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor1 tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto2;
Da alma um fogo me sai, da vista3 um rio;
Agora4 espero, agora4 desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nua hora acho mil anos5, e é de jeito6
Que em mil anos não posso achar üa hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís de Camões



1. ardor - fogo amoroso.
2. desconcerto — absurdo.
3. vista - olhos.
4. Agora... agora - ora... ora.
5. Nua hora acho mil anos — uma hora equivale a mil anos.
6. de jeito — de tal modo.



I

1. Este soneto de Camões apresenta uma estrutura bipartida.
1.1. Delimita as duas partes lógicas que o constituem.
1.2. Resume o conteúdo de cada uma delas.

2. Relê o primeiro verso do soneto.
2.1. Faz o levantamento das antíteses que realçam o carácter contraditório do "estado" em que o sujeito poético se encontra.
2.2. Aponta mais dois recursos estilísticos que contribuem para a intensificação expressiva dos sentimentos do sujeito lírico.
2.3. Copia o verso em que se revela a causa do "desconcerto" do sujeito poético.
2.4. Comenta o valor expressivo do advérbio "só", presente no último verso.

3. Explicita o tema deste soneto.

4. Evidencia as características que conferem a este soneto um pendor claramente petrarquista.

5. Salienta as marcas do discurso pessoal que conferem a este soneto um tom autobiográfico.


II

1. Recordando que a "autobiografia é um género narrativo em prosa em que o autor real, que é simultaneamente o narrador e a personagem principal, relata retrospectivamente a sua vida", vais elaborar, num texto com cerca de 120 palavras, devidamente estruturado, a tua autobiografia (real ou imaginada).