12.2.07

Os dez anõezinhos da Tia Verde-Água

Era uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava nem tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa e logo passava para outra, tudo ficava em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e à noite nem água para os pés nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homem lhe pôs as mãos e ia-a tosando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o homem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as fados a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água:
– Ai, Tia! vocemecê é que me podia valer nesta aflição.
– Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa para te ajudarem.
E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem; que quando pela manhã se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume, depois enchesse o cântaro de água, varresse a casa, aponteasse a roupa, e no intervalo em que cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assim indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez anõezinhos. A mulher assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu. Logo à boca da noite foi a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viu nem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como por encanto. Foram-se assim passando as coisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; ao fim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e que assim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmo porque a féria chegava para mais, vai a casa da Tia Verde-Água agradecer--lhe o favor que lhe fez:
– Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição; trago agora tudo arranjado, e o meu homem anda muito meu amigo. O que lhe eu pedia agora é que mos deixasse lá ficar.
A velha respondeu-lhe:
– Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?
– Ainda não; o que eu queria era vê-los.
– Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos, e os teus dedos é que são os dez anõezinhos.
A mulher compreendeu a causa, e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz luzir o trabalho.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português



I

1. O conto popular que acabaste de ler começa com a referência a um conflito.
1.1. Identifica-o e explica o seu motivo.

2. A mulher pede ajuda. A quem? Porquê?

3. Explica a ajuda prestada.

4. E a harmonia voltou ao lar.
4.1. Sublinha, no texto, as expressões que melhor mostram essa harmonia.

5. Explica qual é a lição ou conclusão que se pode tirar deste texto.

6. O texto remete para um tempo cada vez mais distante em que as mulheres estavam em casa e eram as únicas responsáveis pelas tarefas domésticas.
6.1. Faz o levantamento das tarefas que a mulher do conto executava.

7. Faz um breve resumo do conto.


II

1. Por ser um conto popular o texto apresenta muitas palavras e expressões populares, ou seja, que correspondem a um uso da fala popular. Substitui-as por palavras e expressões da norma culta.

a. arranjadores
b. luzir
c. apontear
d. não tinha ordem no governo da casa
e. limposa
f. o homem lhe pôs as mãos e ia-a tosando
g. féria
g. à boca da noite

2. As palavras livro, aventura e crime pertencem a campos lexicais diferentes. Para cada uma delas apresenta uma lista de quatro palavras que pertençam a cada um dos campos lexicais.