22.2.07

Oh! Como se me alonga de ano em ano



Oh! Como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo, a ver se inda parece,(1)
Da vista se me perde e da esperança.

Luís de Camões


Nota:
1 – Parece é a forma quinhentista correspondente a aparecer.




I

1. A reflexão sobre a sua vida suscita no poeta sentimentos contraditórios: cansaço de viver e pena de caminhar para o fim. Como se expressa, no discurso, esta oposição de sentimentos?

2. A que recorre o poeta para exprimir, com exactidão, a imagem de uma “peregrinação” cansada?

3. Justifica a angústia do sujeito poético de “caminhar para o fim”, apesar da “peregrinação cansada”. Refere a importância que assume, nesta oposição, o adjectivo “vão”.