18.2.07

O professor de matemática

A mim foi um professor de matemática quem me estragou a infância.
Era um senhor alto, ventrudo, glabro, de lunetas cínicas e feições gelidamente irónicas que olhava para nós como para feras de bibe e calção capazes de, ao mínimo descuido do domesticador, saltarem para o estrado, comererm-no vivo, roubarem-lhe a caderneta, partirem-lhe o ponteiro na calva e escreverem no quadro, a giz, a divisa libertadora: “Abaixo as equações! Viva o jogo da barra!”
Para nos conter em respeito, todos os dias marcava zeros à classe em peso. E quando algum aluno mais palidamente resoluto lhe respondia com assanho, não se enxofrava nem se enfurecia. Pelo contrário, as lunetas luziam-lhe mais cínicas. E, pingante de tranquilidade cruel, pegava no ponteiro e entretinha-se a vergastar o pobre rapaz nos dedos, nos braços, na cabeça, ao mesmo tempo que o supliciava com a sua voz fria, gota a gota, como a prova da água na Inquisição.
Foi esse senhor quem me estragou a infância, repito, impedindo-me de saborear os 14 anos possíveis de paraíso na terra. As suas lunetas, a sua voz cortante, o seu riso agreste, não me permitiam respirar em liberdade a alegria de possuir pul-mões.
A matemática, em vez de dar ordem e harmonia à minha pequena alma dócil, enegrecia-a de raiva e de indisciplina sem aurora.
Vivia aflito humilhado, com uma pedra no peito; olhava para o sol como se fosse uma chaga; a água parecia que alguém tinha batido na terra para a fazer cho-rar.
E, ao invés das crianças de todo mundo que folgam pelo menos uma hora por dia ao ar livre nos pátios de recreio, a admirarem o sol, as árvores, as nuvens, como brinquedos maravilhosos, eu e os meus camaradas do colégio sofríamos a nossa hora diária de penumbra magoada, as nossas férias de tortura, naquela saleta negra, bafienta, com as carteiras riscadas a canivete e um senhor cínico, de ponteiro em punho, a domesticar a nossa palidez de haver matemática!
Por isso, não me espanto quando ouço a minha geração curva, amarelenta e bisonha, falar da "infância estragada".
Todos tivemos um professor assim! Todos frequentámos escolas fúnebres, malcheirosas e feias, com corredores a pingarem mapas de humidade nas paredes.
Todos apodrecemos nesta paisagem deserta de árvores e de flores, a olhar para a caderneta como para o livro dos zeros do Destino.
E todos passámos a infância a imaginar como seria bom residir num mundo à parte, feito à nossa imagem e semelhança, num planeta próprio, pequenino, miniatu-ral, com outra natureza, outras cidades, outras árvores, outros professores de matemática - muito distante da Terra, esse asilo de pessoas ridiculamente crescidas!

José Gomes Ferreira, O Mundo dos Outros, 1950


Vocabulário:
glabro – careca
bisonha – acanhada, tímida



I

1. Divide o texto em três partes, apresentando os motivos dessa divisão.

2. O texto de José Gomes Ferreira pode ser considerado um texto literário em virtude da forma criativa como o autor utilizou a linguagem. Faz um breve comentário a esta afirmação.

3. Explica o significado das expressões que se seguem e identifique a figura de estilo presente em cada uma delas.
a) “olhava para nós como feras de bibe e calção”
b) “Vivia aflito, humilhado, com uma pedra no peito”
c) “impedindo-me de saborear os 14 anos possíveis de paraíso na terra.”

4. Há mais amargura do que humor nesta crónica.
Contudo, um sorriso por detrás de algumas (poucas) afirmações do Autor.
Releva do texto uma passagem que pode ter algum efeito cómico, explicando quais os processos que contribuem para que tal aconteça.

5. O texto fala-nos de um professor de Matemática. No entanto, a crítica não se resume toda a essa figura. Qual é, afinal, o objecto alvo da crítica de J.G. Ferreira? Justifica a tua resposta.


II

1. Transforma as duas frases simples numa complexa:
Todos tivemos um professor assim! Todos frequentámos escolas fúnebres.

2. Classifica cada uma das orações da frase complexa que escreveste.

3. Escreve a seguinte frase no futuro:
Foi esse senhor quem me estragou a infância.

4. Escreve 5 palavras do campo lexical de escola.


III

Todos nós recordamos um professor que, de forma positiva ou negativa, marcou a nossa infância ou a adolescência.
Num texto bem estruturado, com cerca de 15 linhas, fala desse professor e das impressões que o mesmo te causava.