14.2.07

Estavam no Loreto...




Estavam no Loreto; e Carlos parara, olhando, reentrando na intimidade daquele velho coração da capital. Nada mudara. A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brasões eclesiásticos, pendiam nas portas das duas igrejas. O Hotel Aliança conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo Sol dourava o lajedo; batedores de chapéu à faia fustigavam as pilecas; três varinas, de canastra à cabeça, meneavam os quadris, fortes e ágeis na plena luz, A uma esquina, vadios em farrapos fumavam; e na esquina defronte, na Havanesa, fumavam também outros vadios, de sobrecasaca, politicando.
- Isto é horrível, quando se vem de fora! - exclamou Carlos. - Não é a cidade, é a gente. Uma gente feiíssima, encardida, molenga, reles, amarelada, acabrunhada!...
- Todavia Lisboa faz diferença - afirmou Ega, muito sério. - Oh, faz muita diferença! Hás-de ver a Aveni-da... Antes do Ramalhete vamos dar uma volta à Avenida.
Foram descendo o Chiado. Do outro lado, os toldos das lojas estendiam no chão uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados às mesmas portas, sujei¬tos que lá deixara havia dez anos, já assim encostados, já assim melancólicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas lá estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas ombreiras, com colarinhos à moda. Depois, diante da Livraria Bertrand, Ega, rindo, tocou no braço de Carlos:
- Olha quem ali está, à porta do Baltreschi!
Era o Dâmaso. O Dâmaso, barrigudo, nédio, mais pesado, de flor ao peito, mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente embrutecido de um ruminante farto e feliz. Ao avistar também os seus dois velhos amigos que desciam, teve um movimento para se esquivar, refugiar-se na confeitaria. Mas, insensivelmente, irresistivelmente, achou-se em frente de Carlos, com a mão aberta e um sorriso na bochecha, que se lhe esbraseara.
- Olá, por cá!... Que grande surpresa!
Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo também, indiferente e esquecido.
- É verdade, Dâmaso... Como vai isso?
- Por aqui, nesta sensaboria... E então com demora?
- Umas semanas.

Eça de Queirós, Os Maias


I

Recorde a visão social de Eça de Queirós em Os Maias e faça uma leitura atenta deste excerto. Responda às questões, fundamentando as suas respostas:

1. Situe o texto na estrutura interna da obra.

2. Eça de Queirós, ao longo de Os Maias, desenha a cidade de Lisboa e a necessária integração do homem.
2.1. Faça, distinguindo, o retraio da cidade e das pessoas que Carlos presencia.
2.2. Explicite a integração do homem na cidade.

3. Faça a análise da linguagem, tendo em conta a expressividade de algumas categorias morfológicas (verbos, advérbios, adjectivos...) e dos recursos estilísticos.


II

Construa uma frase complexa que contenha uma proposição relativa e que integre a informação contida nas frases simples que se seguem:
O Pedro está a estudar na Grécia.
A Grécia é berço da civilização ocidental e património da Humanidade.
2. Do grupo de palavras apresentado abaixo, enumere as que podem ser consideradas como cognatas, isto é, como fazendo parte de uma mesma família de palavras.

sal, salmão, salobro, saliente, salutar, salinidade, saldar, salgar, salvamento, salitre, saltitar, salmoura, salmo, saleta

(in Prova Específica de Português, 1995)


III

Escolha um dos temas abaixo enunciados.

A.
O romance Os Maias transmite-nos uma visão magistral de uma época e de um espaço social.
  • Num texto cuidado, refira-se às imagens ou às impressões dominantes que lhe ficaram da leitura do romance, no que diz respeito à sociedade nele representada. Procure documentar sempre a sua resposta com exemplos de personagens-tipo, cenas ou episódios mais significativos.

B.
A literatura apresenta-se como expressão de compromisso que procura intervir na consciencialização do homem, dando-lhe o sentido das injustiças e da revolta.
  • Disserte sobre a afirmação transcrita, recordando a lírica portuguesa desde a época medieval aos nossos dias.