19.1.07

O Sapateiro Pobre





Havia um sapateiro, que trabalhava à porta de casa, e todo o santíssimo dia cantava; tinha muitos filhos, que andavam rotinhos pela rua, pela muita pobreza, e à noite enquanto a mulher fazia a ceia, o homem puxava da viola e tocava os seus batuques muito contente. Defronte dele morava um ricaço, que reparou naquele viver, e teve pelo sapateiro tal compaixão, que lhe mandou dar um saco de dinheiro, porque o queria fazer feliz. O sapateiro lá ficou admirado; pegou no dinheiro e à noite fechou-se com a mulher para o contarem. Naquela noite o sapateiro já não tocou viola; as crianças andavam a brincar pela casa e faziam barulho, fizeram-no errar a conta e ele teve de lhes bater, e ouviu-se uma choradeira, como nunca tinham feito quando tinham mais fome. Dizia a mulher:
– E agora, o que havemos nós de fazer a tanto dinheiro?
– Enterra-se.
– Perdemos-lhe o tino; é melhor metê-lo na arca.
– Mas podem roubá-lo, o melhor é pô-lo a render.
– Ora isso é ser onzeneiro.
– Então levantam-se as casas, e fazem-se de sobrado, e depois arranjo a oficina toda pintadinha.– Isso não tem nada com a obra; o melhor era comprarmos uns campinhos; eu sou filha de lavrador e puxa-me o corpo para o campo.
– Nessa não caio eu.
– Pois o que me faz conta é ter terra; tudo o mais é vento.
As coisas foram-se azedando, palavra puxa palavra, o homem zanga-se, atiça duas solhas na mulher, berreiro de uma banda, berreiro de outra, naquela noite não pregaram olho. O vizinho ricaço reparava em tudo, e não sabia explicar aquela mudança. Por fim o sapateiro disse à mulher:
– Sabes que mais, o dinheiro tirou-nos a nossa antiga alegria! O melhor era ir levá-lo outra vez ao vizinho dali defronte, e que nos deixe cá com aquela pobreza que nos fazia amigos um do outro. A mulher abraçou aquilo com ambas as mãos e o sapateiro com vontade de recobrar a sua alegria e a da mulher e dos filhos, foi entregar o dinheiro e voltou para a sua tripeça a cantar e trabalhar como o costume.


I

1. Sublinha o sinónimo correspondente à palavra que se encontra em itálico. Só existe uma opção correcta, para cada frase.

1. … “isso é ser onzeneiro
a) comerciante b) avarento c) esperto c) pobre
2. …”o homem zanga-se, atiça” …
a) prega (bater) b) acende c) sacode d) esfrega
3. … “atiça duas solhas na mulher” …
a) peixes marinhos b) gargalhadas c) moedas d) bofetadas
4. … “voltou para a sua tripeça”…
a) ofício de sapateiro b) fazenda c) festa d) terra

2. Identifica as personagens deste texto.
3. Caracteriza-as.
4. Refere o que o vizinho decidiu fazer.
5. Explica o que aconteceu na casa do sapateiro depois de ter recebido a oferta.
6. Aponta a forma como o sapateiro e a mulher resolveram o conflito.
7. Salienta a moral que este conto pretende transmitir.
8. Este texto é um conto popular. Menciona as características ou a estrutura deste tipo de textos.
9. Este conto contém várias expressões populares.
9.1 Explica o sentido das seguintes:
a) … ”Perdemo-lhe o tino”…
b) … “puxa-me o corpo para o campo” …
c) … “tudo o mais é vento” …
d) … ”palavra puxa palavra” …
e) … “abraçou aquilo com ambas as mãos” …


II

1. Elabora um comentário sobre o texto publicitário, salientando as regras da publicidade e explicando a importância da publicidade no nosso dia-a-dia.


III

Num texto de 10 linhas, no mínimo, elabora UMA das sugestões apresentadas.

A – Elabora um conto cujo título é «As Três Mentiras da Avozinha»
B – Conto: O João Adivinhão