28.1.07

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente1.

Errei todo o discurso2 de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro génio3 de vinganças!

Luís de Camões, Poesia Lírica


1. Entenda-se: "a não desejar mais ser feliz".
2. Decurso.
3. Espírito, maléfico ou benéfico, que presidia ao nascimento e destino de cada pessoa.



I

1. O sujeito poético faz um balanço da sua vida.
1.1. Indique os factores que contribuíram para a sua desgraça.

1.2. No entanto apenas uma das causas teria sido suficiente para o seu infortúnio. Identifique-a.

1.3. Aponte o significado que a palavra "fortuna" assume no primeiro verso.

2. Atente, agora, na segunda estrofe.
2.1. Encontre um sinónimo para cada uma das formas do verbo passar em "Tudo passei" e "a grande dor das coisas que passaram"

3. Descreva a forma como o primeiro verso se desenvolve nos tercetos.

4. Manifeste o desejo do eu lírico nos últimos dois versos.

5. Faça o levantamento dos vocábulos e expressões que remetem para o sentimento de amargura.

6. Atente na construção do poema, ao nível da estrutura externa.
6.1. Indique o número de estâncias que o constitui, a designação que se dá a essas estâncias e o nome que se atribui a este tipo de composição poética.

6.2. Faça a escanção do primeiro verso e classifique-o quanto ao número de sílabas métricas.

6.3. Registe o esquema rimático da segunda estrofe do poema e classifique o tipo de rima.