7.1.07

Diminutivos

Por Maria Judite de Carvalho,
(escritora portuguesa, 1921-1998)



Suamos diminutivos por todos os poros, é um exagero. Talvez seja resultado dos nossos brandos costumes, talvez, às vezes, de uma certa, embora ignorada, subserviência. Já o Melchior o Eça falava das enxergazinhas no chão. E depois, que lá pelos lençoizinhos respondia ele. «A gente apanhada sem um colchãozinho de lã, sem um lombozinho de vaca [...]. Ele sempre é uma leguazita de mau caminho...»
Somos o Zé Povinho, para começar. Estamos malzinho, coitadinhos, ou estamos bonzinhos, acontece. Estamos também piorzinhos, melhorzinhos, obrigados, melhor, obrigadinhos. Começamos a trabalhar cedinho, voltamos para casa à tardinha, à noitinha, conforme as esta-ções. Às vezes está fresquinho, cai uma chuvinha fria, mas no Verão ainda há uma restiazinha de sol, um calorzinho bom, sabe bem caminhar devagarinho. Chegamos ao exagero de dizer que agorinha mesmo vamos sair, mas caludinha, não nos demoramos, vamos depressinha e então até loguinho. É pertinho onde vamos, longinho às vezes. Não estamos nadinha preocu-pados com isto ou com aquilo. Mas então, nadinha.
Chegamos pois ao exagero dos advérbios, das conjunções c até das interjeições em diminutivo. O que é um espanto para os estrangeiros que começam a aprender a nossa língua. Há, porém, limites que, talvez porque somos gente - ou gentinha - muito receosa do ridículo - daquilo que para nós é ridículo, naturalmente - por nada deste mundo ultrapassamos.
É-nos, por exemplo, impossível conhecer os nossos políticos por um diminutivo. Ora isso é frequentíssimo no Novo Mundo. Os irmãos Kennedy eram -são - conhecidos por Jack, Bob e Ted. Cárter1 é Jimmy (Jaiminho).
Nós temos, porém, a nossa noção do ridículo e não podemos ultrapassá-la. Ela é uma das coisas mais duradouras e profundas que, tantas vezes sem o saber, herdámos, conservamos intacta e vamos deixar aos que ficam. Os nossos políticos podem pois estar tranquilos. Por mais que gostemos deles nunca lhes chamaremos Toninho* nem Lourdinhas.

O Jornal, 31 de Outubro de 1979




I

1. A crónica tem um estatuto ambíguo, oscilando entre o registo literário e o jornalístico.
1.1. Identifique essas marcas de hibridez no texto apresentado.
1.2. Caracterize o modo como a cronista trata o fenómeno por ela seleccionado.

2. Considera actual a observação contida no último parágrafo? Justifique.

3. Há duas partes no texto: uma em que a cronista se debruça sobre as regras do uso dos diminutivos e outra em que reflecte sobre uma excepção.
3.1. Delimite-as.
3.2. Verifique se nos exemplos que a cronista apresenta estão presentes todas as classes de palavras a que faz referência. Registe o seu levantamento em colunas: nomes, adjectivos, advérbios, conjunções, interjeições.

4. Leia os dois primeiros parágrafos em voz alta, fazendo regressar as palavras ao seu grau normal. Pondere as modificações de sentido produzidas por essa alteração. Tente defini-las.

5. A cronista dá uma explicação para o uso dos diminutivos.

6. Concorda com as teses da autora? Confronte este fenómeno com o equivalente nas línguas estrangeiras que conhece.


II

1. Embora o sufixo -inho seja o que mais frequentemente se usa na formação dos diminutivos, outros há também muito produtivos. Apresente alguns exemplos.

2. Reescreva os dois primeiros parágrafos do texto fazendo uso de outros sufixos diminutivos; avalie os efeitos produzidos.

3. Observe durante três minutos a caricatura do Zé Povinho e anote os aspectos para si mais relevantes. Organize um plano-guia a partir das suas notas, de modo a fazer uma descrição estruturada da imagem, destacando os processos caricaturais e os sentidos por eles produzidos.

Imagem:Zepovinho.jpg